Candidato colombiano defende união latino-americana

Em entrevista ao iG, opositor Antanas Mockus diz que atuação em bloco aumentará peso da região e defende maior parceria com Brasil

Leda Balbino, iG São Paulo |

O opositor colombiano Antanas Mockus , do Partido Verde, conseguiu em três meses projetar-se como um dos favoritos para as eleições presidenciais da Colômbia, saindo de 3% nas intenções de voto em fevereiro para um atual empate técnico com o candidato governista, o ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos, do conservador Partido de La U.

Apesar de as últimas pesquisas indicarem que Mockus, de 58 anos, pode perder por pouco o primeiro turno eleitoral, que ocorre no domingo de 30 de maio, tem boas chances de vencer o segundo, em 20 de junho. Segundo o último levantamento, divulgado pelo Instituto Ipsos-Napoleón Franco em 22 de maio, Santos venceria o primeiro turno com dois pontos de vantagem sobre Mockus: 34% a 32%. Na segundo turno, porém, a pesquisa indica que Mockus ganharia com 45% a 40%, numa disputa apertada que transformou as eleições deste ano nas mais eletrizantes em muito tempo no país de 44 milhões de habitantes.

AP
O candidato presidencial Antanas Mockus, do Partido Verde, segura girassol e cópia da Constituição colombiana no comício de encerramento de sua campanha (23/05/2010)

O segredo para o bom desempenho do ex-prefeito de Bogotá (1995-1998 e 2001-2003) é a campanha pautada na defesa da “ legalidade democrática ”. O lema é uma crítica aos escândalos dos oito anos do governo pró-EUA de Álvaro Uribe, cuja popularidade de 74% tem como base a política de Segurança Democrática, que contou com US$ 6 bilhões de Washington para conseguir isolar a guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Além disso, o matemático e filósofo de origem lituana fez algo inédito na Colômbia. Inspirados pela estratégia bem-sucedida do presidente dos EUA, Barack Obama, nos EUA em 2008, os responsáveis por sua campanha usaram a internet para chegar aos eleitores, principalmente aos jovens.

Hoje, ele é a sétima pessoa em número de amigos no Facebook e o político colombiano com maior número de seguidores no Twitter. Numa mostra da eficiência de sua campanha, o iG recebeu em poucas horas as diretrizes para conseguir uma entrevista, em uma mensagem que terminava com a frase: “A meta é nos multiplicar cada vez mais e, para consegui-lo, você também é importante.”

Na entrevista ao iG , Mockus indica que, diferentemente de Uribe, não privilegiará os EUA em detrimento dos países latino-americanos e manterá a política de combate às Farc. Leia a seguir.

i G: O sr. disse que, se eleito, usará a diplomacia e recuperará o comércio com a Venezuela, que tem várias divergências com o governo Uribe. Diferentemente do atual presidente, o sr. priorizará mais seus vizinhos regionais em vez dos EUA?
Mockus: Desde nossa candidatura promovemos a internacionalização das relações políticas, econômicas, sociais, culturais e ecológicas sobre as bases da equidade, igualdade, reciprocidade e conveniência nacional. Asseguramos que as relações com os EUA e os países da região tenham como base o respeito à soberania nacional, à autodeterminação dos povos, à pluralidade, à diversidade e ao reconhecimento e cumprimento dos princípios, tratados e acordos multilateriais aceitos pela Colômbia. Acreditamos que se deve buscar a união regional. O fortalecimento de instituições como a CAN (Comunidade Andina de Nações) e a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) é fundamental. A Europa é um exemplo de que, atuando em bloco, podemos ter mais peso no panorama mundial.

iG: Qual é a relação que pretende estabelecer com o Brasil?
Mockus: Afiançar as relações internacionais, sobretudo com nossos vizinhos, é crucial, e isso é especialmente certo com o Brasil, independentemente do novo governante que será eleito neste ano. Devemos nos aproximar mais especialmente na cooperação recíproca em matéria comercial, ambiental, energética, educativa, científica, tecnológica e de segurança. O objetivo de alcançar um desenvolvimento latino-americano integral e sustentável é de todos os nossos povos, por isso a ajuda mútua, generosa e respeitosa da soberania é indispensável para alcançar esse objetivo comum.

iG: Documento da Polícia Federal do Brasil indicou a atuação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) na Amazônia brasileira para atividades de narcotráfico. Se eleito, como planeja atuar para evitar que a guerrilha ultrapasse as fronteiras colombianas?
Mockus: Para isso, são necessárias a cooperação binacional e a melhora das comunicações e ações contra o narcotráfico. A responsabilidade no combate aos cartéis deve ser compartilhada entre cidadãos e Estados e entre Estados produtores (de entorpecentes) e consumidores. A América Latina e a América do Norte devem se integrar com mecanismos de cooperação e apoio contra a cultura da ilegalidade associada ao narcotráfico. Países consumidores e produtores devem realizar um debate conjunto sobre qual deverá ser a política antidrogas mais efetiva para a próxima década.

iG: O sr. planeja manter o mesmo nível de pressão de Uribe no combate à guerrilha?
Construiremos sobre as bases do que foi alcançado pelos governos que nos antecederam, em particular o do presidente Uribe, e consolidaremos nas mãos do Estado o monopólio no uso legítimo da força. A segurança se consolida nas regiões com a presença de uma justiça próxima do cidadão e eficaz em sua tarefa. E também com as oportunidades criados pela prosperidade baseada na legalidade.

iG: Analistas opinam que seu crescimento nas pesquisas se deve em parte à campanha contra a corrupção, em uma referência aos escândalos do governo Uribe. Se eleito, quais medidas pretende adotar para evitar desvios e atos ilegais?
Mockus: Nossa proposta fundamental está centrada no respeito à lei. Essa é a única maneira de conseguir a prosperidade sem atalhos, sem a ideia equivocada de que o fim justifica os meios. Pelo contrário, são os meios – deliberativos, participativos, democráticos – que legitimam os fins. Por isso impulsionarei como principais políticas na Colômbia a legalidade democrática e a educação e mudança cultural como motor de desenvolvimento.

iG: No Facebook, o sr. é a sétima pessoa do mundo com mais amigos. E, entre os candidatos colombianos, lidera em número de seguidores no Twitter. Qual é o papel da internet no bom desempenho de sua campanha?
Mockus: Nossa campanha na internet mostra uma forma de fazer política que não havia sido feita antes no país e certamente nos ajudou bastante a chegar aos jovens. O crescimento da campanha mostra que os cidadãos descobriram a importância do voto de consciência. Durante muitos anos as eleições na Colômbia giraram em torno de cargos, favores e clientelismo, causando pobreza, desilusão e desencanto. Hoje a onda verde rompe a lógica eleitoral, mostra que com três ideias centrais – legalidade democrática, respeito absoluto pela vida humana e gerenciamento transparente dos recursos públicos – se pode abrir a política. Nossa liderança se deve à forma de fazer política e ao fato de os colombianos desejarem uma mudança na forma de governar.

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