Candidato a vice na Argentina troca terno por jeans e guitarra

Amado Boudou é um 'estrangeiro' para peronistas, mas conta com a confiança de Cristina Kirchner que o considera leal e corajoso

iG São Paulo |

AFP
Ministro da Economia e candidato à vice-presidência, Amado Boudou, toca guitarra em San Rafael, Mendoza (12/10)
O candidato ao cargo de vice-presidente pelo partido peronista governante na Argentina, Amado Boudou, tem suavizado sua dura função de ministro da Economia tocando guitarra como uma estrela do rock na campanha eleitoral. Considerado charmoso e jovial pouco antes de completar 48 anos, Boudou - Aimé, para os íntimos e Amado, para os mais novos companheiros de política - anima o público jovem ao trocar o terno preto por jeans, tênis esportivos, camiseta sem manga e jaqueta.

Com esse look despojado e às vezes a bordo de sua moto Harley Davidson, Boudou percorreu grande parte do país em seu papel de candidato, misturando viagens eleitorais com suas obrigações de ministro. "Além da lealdade, valorizo o fato de que Boudou não tem medo, porque eu preciso de alguém ao meu lado que não tenha medo das corporações", disse a presidente Cristina Fernández de Kirchner em 25 de junho ao escolhê-lo como companheiro de chapa para as eleições de 23 de outubro.

Naquele dia, o ministro, que pouco antes teve de desistir de sua pré-candidatura ao governo portenho para as eleições de julho passado, lacrimejou. "Boudou é emotivo, muito espontâneo, um cara simples", disse à AFP um aliado que não quis se identificar.

Nascido em Buenos Aires em uma família de classe média baixa, tinha 5 anos quando seus pais se mudaram para a cidade balneária de Mar del Plata, a 400 km ao sul, em cuja universidade pública formou-se economista em 1986. Ali começou sua vida profissional em várias empresas privadas de limpeza urbana e, no fim dos anos 1990, voltou a Buenos Aires, quando trabalhou na Administração de Segurança Social (Anses).

Fanático como muitos de sua geração pelo chamado rock nacional, nos anos 1980, Boudou organizou shows na praia e era DJ. Desde aquela época acumulou uma coleção de 12 guitarras elétricas, que durante a campanha empunhou em dezenas de palcos com a banda de seu amigo Miguel Quieto, além de se apresentar diante de milhares de jovens em uma homenagem a Pappo, um famoso guitarrista argentino morto em 2005.

"Ele realmente gosta de música, não é um personagem criado", disse à AFP Claudio Heredia, outro apaixonado pelo rock, funcionário da Secretaria Legal e Técnica da presidência. Mas o passado de Boudou, com sua militância em um grupo universitário de direita, continua gerando ressentimentos nos grupos governistas. "Para muitos peronistas, Boudou é um estrangeiro. Mas como bom convertido, ele é o mais 'cristinista' de todos", advertiu, sob anonimato, um kirchnerista que passa diariamente pelos corredores da Casa Rosada.

O "grande acerto" de Boudou, dizem, foi idealizar em 2008 a estatização dos fundos de pensão privados, plano que conquistou o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007). Outra demonstração de lealdade foi assumir o Ministério da Economia em julho de 2009, no pior momento do governo de Cristina por conta do conflito com o setor agrário.

O ministro encerrou o processo de reestruturação da dívida pública, da qual resta pendente a dívida com o Clube de Paris, e defendeu o uso das reservas do banco central para pagar a dívida, enfrentando o então presidente da entidade, Martín Redrado. "Boudou me faz lembrar o filme O Espelho tem Duas Faces. Os que o conhecem sabem que é uma pessoa falsa", disse na campanha Redrado, demitido do banco central argentino em 2010 e agora candidato a deputado pelo peronismo dissidente.

O ministro da Economia que faz em público gestos românticos à sua namorada, a jornalista Agustina Kämpfer, 20 anos mais nova, com quem vive em um apartamento do exclusivo bairro de Puerto Madero, deu à fórmula presidencial "uma dose necessária de proximidade com a população", dizem na Casa Rosada. Mas seu bom trato se ofusca quando enfrenta jornalistas críticos, os quais qualificou de "profetas do ódio e do fracasso", o que lhe valeu o repúdio da associação de empresas jornalísticas e de porta-vozes da oposição.

Campanha presidencial

A poucos dias da eleição, Cristina Kirchner visitou uma das principais entidades ruralistas do país, em um gesto de reaproximação com o setor, com o qual ela mantém atritos desde 2008. Cristina é favorita para ser reeleita no próximo domingo com ampla margem, em parte graças aos votos que receberá em várias das localidades rurais que há três anos fecharam estradas em protestos contra as políticas agrícolas do governo.

Com o passar do tempo, algumas mudanças moderadas nas políticas governamentais e o forte crescimento econômico fizeram com que muitos argentinos de zonas rurais deixassem esses descontentamentos para trás e votassem na presidente na eleição primária de agosto passado, na qual ela obteve cerca de 50 por cento dos votos, com quase 40 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado.

A expectativa dos analistas é de um resultado semelhante no próximo domingo, e também de que o governo consiga uma expressiva maioria parlamentar. "É outro cenário, não é 2008", disse Carlos Garetto, presidente da associação de cooperativas Coninagro, cujos dirigentes estiveram com Cristina nesta segunda-feira.

A Coninagro foi uma das quatro grandes entidades ruralistas que participaram dos protestos de 2008 contra uma elevação de impostos, num movimento que durou três meses e atraiu grande adesão. "Acho que vem por aí uma etapa diferente, é preciso aproveitar quando se abre um canal dessa magnitude, um canal que produza espaços de diálogo. Que possamos alcançar consensos, que possamos interceptar posições, inquietudes, propostas", afirmou Garetto à Rádio El Mundo.

A Argentina é um dos maiores produtores mundiais de soja, milho, trigo e girassol, e qualquer disputa doméstica ou mudança normativa costuma repercutir vigorosamente sobre os preços internacionais das matérias-primas. As reiteradas intervenções do governo no mercado doméstico e os impostos e restrições sobre as exportações geram há anos descontentamento no setor agrário.

Nas eleições legislativas de 2009, o governo foi derrotado em vários dos principais distritos rurais do país. Nos últimos meses, no entanto, o governo fez acenos positivos para cooperativas e pequenos produtores.

Entidades como a Coninagro e a Federação Agrária apoiaram, por exemplo, o projeto do governo que limita a propriedade estrangeira de terras. O governo, por sua vez, apoiou medidas para agilizar as exportações de trigo e milho e para fomentar as cooperativas.

AFP
Cristina e Néstor Kirchner refizeram o peronismo aliando-o ao respeito aos direitos humanos
Os Kirchner e o peronismo

Néstor e Cristina Kirchner mudaram o rumo do peronismo de direita dos anos 1990 com um perfil de centro-esquerda baseado na defesa dos direitos humanos, explicaram analistas. Apesar de seu viés progressista, em seus oito anos de gestão, o kirchnerismo continua mantendo polêmicos líderes distritais e prefeitos acusados de corrupção na pobre e populosa periferia de Buenos Aires.

"Com os Kirchner, houve uma mudança de orientação ideológica do liberalismo dos dois mandatos de Carlos Menem (1989-1999), orientando-se para o centro-esquerda, com ações que recuperam os anos 1970 e o primeiro peronismo", disse à AFP o sociólogo Ricardo Rouvier. Rouvier referiu-se à violenta década do século passado, na qual os Kirchner militaram nas filas do peronismo radicalizado na Universidade de La Plata, onde muitos de seus companheiros foram assassinados ou estão desaparecidos após o golpe de Estado de 1976.

Os Kirchner formaram uma parceria amorosa, política e profissional que funcionou durante 35 anos até a morte do ex-presidente há quase um ano . Eles recuperaram também as bandeiras da justiça social do três vezes presidente Juan Perón (1946-1952, 1952-1955 e de 1973 até sua morte em 1974) e de sua mulher Eva Duarte, a Evita. "A ruptura com o 'menemismo' não é apenas relativa ao plano discursivo. Apesar de Carlos Menem ter chegado ao poder com o partido peronista, sua gestão esteve plenamente enquadrada no paradigma do Consenso de Washington, ou seja, desregulamentação do Estado e desmantelamento do aparato produtivo", afirmou a socióloga Doris Capurro.

No entanto, para outros estudiosos, o fato de os governos peronistas oscilarem no espectro ideológico não é nada além de pragmatismo. "O neoliberalismo de Menem foi um fenômeno circunstancial, não ideológico. Perón poderia ter feito o mesmo porque o peronismo original pode se mover de forma flexível dentro de amplos limites de ideias e de enfoque da política de governo", afirmou Manuel Mora.

Nesse sentido, o analista entende que "o kirchnerismo é anticonservador, mas não necessariamente pode ser assimilado por uma esquerda consistente, em nenhuma de suas tradições: a marxista autoritária, a social-democracia ou a neopopulista tipo o presidente da Venezuela, Hugo Chávez".

Uma forte bandeira kirchnerista é a dos direitos humanos: a anulação das leis de anistia que tinham sido votadas depois da ditadura (1976-1983) permitiu até agora condenar 240 pessoas, enquanto mais de 800 estão sendo processadas. Essa política recebeu o apoio das principais organizações humanitárias, mas também algumas críticas. "Causa repulsa o uso político dos direitos humanos", disse Julio Strassera, procurador do histórico julgamento das Juntas Militares na gestão de Raúl Alfonsín (1983-1989).

Mas um dos lastros do peronismo que os Kirchner não conseguiram se livrar foi os 'Punteros' (chefes de bairro) e os prefeitos da região metropolitana de Buenos Aires, um bastião inescapável no momento das eleições. "Esses prefeitos estão ligados à corrupção, à máfia e ao narcotráfico", denunciou Fernando Solanas, cineasta, deputado e ex-candidato a presidente do Projeto Sul (centro-esquerda).

Com AFP e Reuters

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