Camponeses peruanos enterram familiares assassinados há 25 anos

Uma lápide colocada sobre o último de quase uma centena de túmulos, na longínqua comunidade andina de Putis, pôs um ponto final à tragédia vivida por este povo: a matança de 92 camponeses por militares há 25 anos. Seus restos foram finalmente enterrados no Peru depois de encontrados em uma vala comum em Putis; no entanto, apenas 28 corpos puderam ser identificados por exames de DNA.

AFP |

Os despojos são referentes a vítimas civis do pior massacre ocorrido no Peru durante o conflito entre as forças do governo e os rebeldes do grupo maoísta Sendero Luminoso.

Mais de 120 homens, mulheres e crianças foram mortos pelas forças de segurança durante campanha contra os guerrilheiros maoístas, que controlavam a área.

"Tinha 25 anos nessa época e fiquei desamparado no mundo sem nenhum familiar; além de meus pais, morreram aí meus irmãos, primos, sobrinhos e tios", relata Gerardo Fernández Medoza, atual prefeito de Putis.

O prefeito, que assistiu à cerimônia fúnebre entre soluços, recorda que quis abandonar Putis, mas não pôde fazê-lo "porque não tinha mais ninguém que pudesse acolhê-lo".

Nenhum militar chegou a ser punido pelo massacre. O ministro da Defesa do Peru, Rafael Rey, afirmou que é impossível obter os registros e documentos que revelam quem participou da ação em Putis.

Putis era o centro de oito comunidades onde viviam 2.000 pessoas até antes da matança. Agora, não restam mais que 300 pessoas.

O enterro foi realizado em meio aos cânticos próprios dos Andes peruanos, entoados em idioma quechua, a língua dos antigos.

Dos 92 corpos encontrados, 20 são de mulheres e 48 de crianças, entre elas menores de 10 anos, precisou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

Os camponeses foram enganados pelos militares: disseram a eles que deveriam fazer uma escavação para construir a parte de uma granja, mas logo foram assassinados e enterrados no mesmo buraco que cavaram, contam sobreviventes.

A exumação dos despojos começou no final de maio de 2008 depois de descoberta a maior fossa comum no Peru.

A guerra civil durou quase duas décadas e deixou 69.000 mortos e desaparecidos, segundo a Comissão da Verdade do Peru.

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