Campanha eleitoral afegã é marcada por avanço talibã e desejo de mudanças

Diego A. Agúndez.

EFE |

Cabul, 19 ago (EFE).- Aproximadamente 17 milhões de afegãos estão aptos a votar na segunda eleição presidencial organizada no país desde a queda do regime talibã, que acontecerá nesta quinta-feira, em meio ao avanço dos rebeldes e aos desejos da população de ver o Afeganistão reconstruído e desenvolvido.

"Este é um dos anos eleitorais mais difíceis que vi", disse há poucos dias à imprensa o enviado especial da ONU para o Afeganistão, Kai Eide.

As autoridades já prepararam quase 3.200 burros de carga para que as urnas do pleito cheguem aos lugares mais inacessíveis do país.

Porém, a preocupação principal é com a segurança.

"É o fator talibã. Não será possível esperar uma alta participação em algumas áreas e províncias. Em mais de dez distritos, será difícil realizar as eleições", declarou à Agência Efe o porta-voz da Fundação Nacional para Eleições Livres e Justas (Fefa), Jandar Spinghar.

Nas últimas semanas, as tropas internacionais destacadas no país lançaram várias operações no tradicional reduto talibã de Helmand (sul). O objetivo destas investidas é garantir a segurança no dia da eleição, que os insurgentes decidiram boicotar.

Em Cabul, são muitos os afegãos que lamentam o agravamento da situação, algo que o próprio chefe das tropas estrangeiras, Stanley McChrystal, admitiu numa recente entrevista ao jornal "Wall Street Journal", na qual afirmou que os talibãs "tomaram vantagem".

Os rebeldes têm forte presença em grande parte do sul e do leste do Afeganistão, áreas onde é majoritária a etnia pashtun, da qual procedem a maioria dos talibãs e também o atual presidente do país, Hamid Karzai, que tenta a reeleição.

Karzai concorre à Presidência tendo o tadjique Mohammed Fahim, um antigo "senhor da guerra", como candidato a vice em sua chapa. Esta estratégia, destacaram os analistas, tem como objetivo dividir a antiga Aliança do Norte (grupos com características étnicas e religiosas distintas, mas unidos pelo desejo de depor os talibãs).

Outra intenção do presidente seria atrair o voto da etnia tadjique, a segunda mais populosa do Afeganistão. Mas nesta massa de votos também mira aquele que é apontado pelas pesquisas como o mais forte adversário de Karzai: Abdullah Abdullah.

Ex-ministro de Assuntos Extoriores, Abdullah também foi um estreito colaborador do guerrilheiro assassinado Ahmed Shah Mehsud, que pertencia à Aliança do Norte e lutava contra os talibãs antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

Tanto o ex-chanceler como o ex-ministro das Finanças Ashraf Ghani, outro dos 41 candidatos ao cargo de presidente da nação, concorrem às eleições como independentes e sem alianças partidárias, que ainda não se consolidaram na incipiente democracia afegã.

"Os tajiques votam nos tajiques. Os pashtuns, nos pashtuns. Cada um vota no seu grupo. Este é o grande problema do Afeganistão", comentou à Efe um estudante de Cabul durante um comício de Ghani.

Lealdades à parte, a geografia e a falta de dados precisos tornam quase impossível uma previsão exata sofre o resultado da votação.

Mas todos os analistas dizem que Karzai tem certa vantagem. Além disso, há meses ele é apontado como "inevitável vencedor".

As duas pesquisas mais recentes, realizadas em julho pelo Instituto Republicano Internacional e pelo centro de análises americano Glevum, atribuem a Karzai 44% e 45% dos votos, respectivamente. Em segundo lugar, com dez pontos de diferença, aparece Abdullah. Ainda assim, esse resultado tornaria necessária a realização de um segundo turno entre ambos.

Com o combate aos talibãs nas mãos das tropas internacionais e do Exército afegão, todos os candidatos passaram a focar o desenvolvimento, a reconstrução do país e a geração de riqueza, além da realização de comícios sob fortes esquemas de segurança.

"Não estão sendo desenvolvidas estratégias. Só há táticas", disse à Efe uma fonte das forças estrangeiras sobre os candidatos ao pleito, que também elegerá representantes para as assembléias provinciais.

Enquanto Cabul é inundada por propaganda eleitoral, as tropas internacionais tentam fazer com que as 29 mil urnas que serão usadas na votação sejam instaladas até 20 de agosto, inclusive nas áreas controladas pelos talibãs.

Após essa data, é esperada uma apuração lenta. Os primeiros resultados devem ser apresentados em 3 de setembro. Já os definitivos serão anunciados no dia 17 do mesmo mês. Caso haja necessidade de um segundo turno, este acontecerá na primeira semana de outubro. EFE daa/sc

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