Cambojanos reagem com dor e alívio a julgamento de torturador

PHNOM PENH - Sobreviventes das atrocidades do Khmer Vermelho reagiram com dor, ódio e alívio na terça-feira ao verem no banco dos réus o principal torturador daquele regime comunista do Camboja, derrubado há 30 anos depois de ter matado até 1,7 milhão de pessoas.

Reuters |

Quase 800 pessoas, inclusive alguns monges budistas perseguidos durante o Khmer Vermelho (1975-79) assistiram ao primeiro julgamento formal de um membro do regime por um tribunal com apoio da ONU.

"Quando vejo (o réu) Duch, minha raiva volta", disse Phok Khan, 56 anos, durante uma pausa no julgamento, nos arredores da capital, Phnom Penh.


"Duch", de azul, é visto no banco dos réus / AP

Duch, conhecido também como Kaing Guek Eav, admite ter cometido atrocidades na S-21, uma antiga escola que virou campo de concentração na época do regime.

Ali, cerca de 14 mil "inimigos da revolução" foram torturados antes de serem agredidos até a morte nos campos de extermínio próximos à cidade.

Vann Nath, hoje com 63 anos, estava entre os poucos sobreviventes. Esse artista de cabelos brancos foi duramente agredido por guardas na S-21, mas fugiu da morte graças ao seu talento para pintar retratos do ditador Pol Pot. Ao ver o julgamento do seu ex-torturador, disse se sentir tomado por sensações ambíguas.

"Este é o dia pelo qual esperamos 30 anos. Mas não sei se acabará o meu sofrimento", afirmou a jornalistas.

Duch sentou-se impassivelmente no tribunal, que tem paredes revestidas de madeira. Vestia camisa azul de manga comprida e tomava água. Eventualmente, colocava os óculos de leitura - algo irônico, já que o Khmer Vermelho perseguia pessoas que usavam óculos, por considerá-las como parte de uma elite intelectual inimiga da revolução.

Duch, hoje convertido ao cristanismo, confessou seus crimes, mas diz que apenas cumpria ordens. O ex-professor francófono não se pronunciou na terça-feira ao tribunal, cuja sessão é transmitida pela TV.

Em frente ao plenário, protegido por vidros, centenas de cambojanos sentaram-se nas galerias, alguns se esforçando para acompanhar a audiência por fones de ouvido. Houve discussões sobre questões regimentais, envolvendo advogados estrangeiros e cambojanos.

Them Khean disse ter viajado 240 quilômetros da província de Kompong Thom, onde nasceram Duch e Pol Pot. "Quero ver o que Duch tem a dizer sobre seus crimes do passado", disse Khean, 65 anos, que perdeu dez parentes devido à fome e à tortura.

Va Boeurn, 66 anos, disse que queria ver o rosto de Duch para tentar entender como um humano poderia cometer atos tão hediondos.

"Como é o rosto dele? Por que era tão brutal", perguntou Boeurn, que perdeu sete parentes durante a tentativa de Pol Pot de criar uma utópica sociedade agrária.

A maioria dos cambojanos perdeu parentes durante os quatro anos desse regime que submetia a população a longas jornadas de trabalho, fome e perseguições. A ditadura foi deposta pelo Vietnã em 1979, e Pol Pot morreu em 1998, impune, na fronteira com a Tailândia.

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