Camboja inicia julgamento histórico de autoridades do Khmer Vermelho

Com idades entre 79 e 85 anos, acusados respondem por crime contra a humanidade e genocídio

iG São Paulo |

O tão aguardado julgamento das quatro autoridades do regime Khmer Vermelho ainda vivas, processadas por genocídio e outras acusações, teve início nesta segunda-feira em Phnom Penh em tribunal patrocinado pela ONU, mais de 30 anos depois dos crimes.

O ideólogo do regime de Pol Pot, o "Irmão Número Dois" Nuon Chea, o ex-ministro das Relações Exteriores Ieng Sary, o presidente da "Kampuchea Democrática" Khieu Samphan e a ex-ministra de Assuntos Sociais Ieng Thirith são acusados de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. Os quatro, que atualmente têm idades entre 79 e 85 anos, estavam presentes, visivelmente cansados.

AP
Foto divulgada por corte do Camboja mostra Nuon Chea (centro), que era o número 2 do Khmer Vermelho e o principal ideólogo do regime de Pol Pot
"Não estou feliz com essa audiência", declarou Nuon Chea, com óculos escuros, antes de informar que seu advogado falaria no tribunal. As autoridades do regime de Pol Pot terão de explicar a implementação metódica e calculada, entre 1975 e 1979, de uma utopia marxista de uma sociedade agrária socialista que matou por exaustão, fome e doenças, ou com torturas e execuções, estimadas 1,7 milhão milhões de pessoas - quase 25% da população do Camboja na época.

O termo genocídio é utilizado com frequência para explicar o período, mas as atrocidades cometidas contra o povo khmer não são reconhecidas como tal pela ONU. Essa acusação é aplicada apenas ao massacre dos vietnamitas e da minoria étnica dos cham muçulmanos. Para o promotor internacional Andrew Cayley, esse é o caso mais importante e complexo desde Nuremberg, cidade alemã em que líderes nazistas foram julgados após a Segunda Guerra Mundial.

Inimigos do Povo

A confissão do número dois do Khmer Vermelho, Nuon Chea, no documentário "Inimigos do Povo" será fundamental em seu julgamento por genocídio se os juízes do tribunal internacional do Camboja incluírem como prova esse testemunho gravado.

No documentário dirigido pelo cambojano Thet Sambath e o britânico Rob Lemkin, Nuon Chea reconhece pela primeira vez que dirigiu com Pol Pot, o irmão número 1, os expurgos políticos contra os "traidores" do partido.

"Essas pessoas eram consideradas criminosas e executadas. Se as tivéssemos deixado vivas, teriam destroçado a linha do partido. Eram inimigas do povo", afirma em uma sequência do filme o considerado ideólogo do Khmer Vermelho.

O tribunal internacional solicitou a Sambath e Lemkin uma cópia do filme e todo o material que haviam obtido durante a rodagem, mas eles se negaram. "Rodei o documentário para a história, não como jornalista nem para o julgamento, mas os juízes são livres para pegar as imagens da televisão ou do cinema", explicou Sambath, que acrescentou que os khmeres vermelhos falaram convencidos de que o filme não seria utilizado contra eles.

"Inimigos do povo" aborda os massacres do Khmer Vermelho por meio de entrevistas com Nuon Chea e outros oficiais de categoria média e baixa e reconstitui os crimes nos campos de extermínio, onde morreram milhares acusados de traição. "Alguns dizem que não é bom falar com os assassinos e remover o horror do passado, mas acho que eles sacrificaram muito para contar a verdade", disse Sambath, repórter do jornal cambojano "Phnom Penh Post".

Na sua opinião, Nuon Chea e os demais khmeres vermelhos "fizeram uma confissão arriscada. Eles e todos os assassinos devem fazer parte do processo de reconciliação para que meu país avance".

O Khmer Vermelho assassinou o pai e o irmão de Sambath. Sua mãe morreu ao dar à luz ao filho de um membro do partido com o qual foi obrigada a casar-se, mas isso ele não contou a Nuon Chea até o final, pouco antes de o tribunal internacional o prender em 2007.

Durante dez anos, Sambath chegou a ter amizade com o octogenário genocida, que após a queda do Khmer Vermelho vivia com a família em uma humilde casa na Província de Pailín, perto da fronteira tailandesa.

No documentário, Nuon Chea defende que lutaram para melhorar o Camboja, mas tropeçaram com a traição interna e de nações inimigas como os Estados Unidos e o Vietnã. Em uma das cenas, um khmer vermelho de baixa hierarquia detalha como executavam os condenados nos campos de extermínio e conta que uma mulher prometeu viver com ele se sua vida fosse poupada.

"Pega-se o pescoço da vítima assim, para que não possa gritar. Às vezes, tinha de segurar a faca de outra forma porque após degolar tantas gargantas a minha mão doia, e então a cravava no pescoço", disse Soun. "Fiquei mal ao voltar ao local onde matei tantas pessoas. É terrível, minha cabeça dá voltas e vem todo o mal que fiz de novo", reconheceu.

No ano passado, o documentário "Inimigos do povo" conquistou os prêmios do júri nos festivais de Sundance e Full Frame, ambos nos Estados Unidos, assim como o Néstor Almendros de Human Rights Watch, e foi apresentado em inúmeros países, mas no Camboja foi exibido de forma limitada.

"O governo não tenta esconder os assassinatos, mas também não fomenta as análises e a investigação das causas dos massacres", disse Sambath, que opinou que a juventude cambojana começa agora a conhecer uma história da qual poucos se atrevem a falar em público.

Sambath e Lemkin preparam um segundo documentário, "Mentes Suspeitas" ("Suspicious Minds"), que esperam poder apresentar no próximo ano e que enfatizará a rede que levou o Khmer Vermelho a cometer um dos maiores genocídios do século 20.

*Com AFP e EFE

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