Calúnias anti-Obama estimularam voto muçulmano, dizem analistas

Por Michael Conlon CHICAGO (Reuters) - Boatos de que Barack Obama seria um muçulmano enrustido ou teria ligações com grupos extremistas islâmicos enfureceram os muçulmanos dos EUA, que votaram maciçamente no candidato democrata na eleição desta semana, disseram especialistas na quinta-feira.

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Dados inéditos das pesquisas mostram que o presidente-eleito teve algo entre 67 e 90 por cento dos votos dos muçulmanos (provavelmente mais para o extremo superior), segundo Ahmed Younis, do Centro Gallup para os Estudos Muçulmanos.

Um momento "divisor de águas" para os muçulmanos dos EUA ocorreu em meados de outubro, segundo ele, quando o ex-secretário de Estado Colin Powell, republicano, manifestou apoio a Obama e desqualificou os boatos de que ele seria muçulmano -- ou mesmo de que isso seria uma ofensa.

"Há algo de errado em ser muçulmano neste país?", protestou Powell num programa da NBC. "A resposta é não, esta é a América. Mesmo assim, tenho ouvido membros importantes do meu próprio partido lançarem a sugestão de que 'ele é muçulmano e deve estar associado com terroristas'."

Para Younis, esse comentário de Powell coroa décadas de empenho dos muçulmanos "para se tornarem parte integral desta nação".

Os muçulmanos constituem menos de 1 por cento dos 305 milhões de habitantes dos EUA, segundo o Fórum Pew para a Religião e a Vida Pública, mas alguns acham que a cifra é mais expressiva.

Obama, filho de um negro do Quênia com uma branca do Kansas, tem "Hussein" como nome intermediário e passou parte da infância no maior país islâmico do mundo, a Indonésia. No entanto, é cristão.

Jen'nan Read, professora de sociologia da Universidade Duke, disse que não só o boato sobre a fé islâmica de Obama não "colou" como, em Estados com disputa muito acirrada, teve efeito negativo para seus adversários a divulgação de um vídeo sobre o extremismo islâmico.

Mais de 20 milhões de cópias de um filme chamado "Obsessão: A Guerra Radical do Islã contra o Ocidente" foram distribuídas junto com jornais por um grupo sem relação com a campanha do republicano John McCain. O filme mostra atentados suicidas, crianças treinando com armas e igrejas sendo saqueadas por muçulmanos.

Read disse que o vídeo era uma sutil tentativa de vincular Obama a extremistas islâmicos, mas que foi distribuído em muitos Estados que eram "redutos do eleitorado muçulmano", que se mobilizou pelo democrata. "Isso pode na verdade ter atraído votos para Obama", disse ela.

Mas além disso, acrescentou a professora, o eleitorado islâmico se parece bastante com a média geral dos EUA. É um grupo que votou maciçamente no republicano George W. Bush em 2000 -- e menos em 2004 -- e que desta vez se preocupou principalmente com questões como economia e o desejo de mudança.

Mukit Hossain, diretor-executivo do Comitê Muçulmano-Americano de Ação Política, disse que o apoio a Obama entre os muçulmanos cresceu dramaticamente nas últimas três ou quatro semanas de campanha, "quando as pessoas passaram a chamá-lo de terrorista" nos comícios republicanos.

Ele disse também que a preocupação com a perda de liberdades individuais desde os atentados de 11 de setembro de 2001 afastou os muçulmanos do Partido Republicano nos últimos anos.

Embora seja difícil obter números precisos, Hossain estima que entre 2 e 3 milhões de muçulmanos estavam registrados para votar neste ano.

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