Calmaria atual no Iraque é frágil, dizem analistas

Os ganhos obtidos nos últimos meses no combate à violência no Iraque são frágeis e podem ser revertidos rapidamente, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil. Essa relativa calma que vemos hoje é mais uma pausa no conflito gerada pela mudança de tática dos militares americanos do que sua resolução.

BBC Brasil |

Resta saber o quão robusta será essa pausa", afirmou Toby Dodge, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IIEE), com sede em Londres.

Posição semelhante foi defendida por Joost Hiltermann, da International Crisis Group, uma ONG que faz campanha para a prevenção de conflitos.

"Do ponto de vista de segurança, o país melhorou muito nos últimos anos. Isso é demonstrável com estatísticas de número de mortos e episódios de violência", disse ele.

"Mas, de uma perspectiva geral, a situação permanece extremamente frágil e a calma atual pode acabar facilmente se algum dos lados, que estava envolvido em violência até recentemente, resolver mudar a posição atual."
Violência sectária e insurgência
Um dos principais fatores apontados para a diminuição da violência no Iraque foi o aumento de tropas americanas na capital, Bagdá, desde meados do ano passado.

Não existem fontes absolutamente confiáveis para o cálculo do número de assassinatos de civis no país, mas a maioria delas afima que o número de mortes violentas em maio (cerca de 530) seria metade do registrado em abril e março.

Também desde maio, pela primeira vez desde o início da invasão comandada pelos Estados Unidos em 2003 no Iraque, o número de soldados americanos foi maior no Afeganistão do que em território iraquiano.

Para Dodge, dois fatores contribuíram para a redução da violência: o aumento do número de soldados americanos no país e, principalmente, uma mudança na forma como esses soldados agem em Bagdá, agora muito "mais próximos da população e cooperando muito mais com ela."
Conflito sectário
Grande parte das mortes de civis no Iraque teve origem no conflito sectário entre sunitas e xiitas que se seguiu à invasão americana.

Durante o regime de Saddam Hussein, a minoria sunita tinha o controle político e econômico do país. Com a queda de seu governo, a maioria xiita conseguiu mais poder, o que contribuiu para o acirramento das tensões entre as duas comunidades.

Além do conflito entre si, facções dos dois grupos realizaram desde 2003 um movimento de resistência armada contra a ocupação americana. Nos últimos meses, tanto o conflito sectário como o movimento de insurgência "foram abafados", segundo Hiltermann.

"A maior milícia xiita (o Exército Mehdi, leal ao clérigo Moqtada Al-Sadr) decidiu que era melhor não combater os americanos, porque isso causaria baixas consideráveis", disse ele.

"Por outro lado, as tribos sunitas que consideram o Irã seu maior inimigo concluíram que poderiam usar, a longo prazo, o poderio militar americano contra os iranianos, se se aliarem aos Estados Unidos", afirma, citando a aliança de grupos sunitas com militares americanos para combater os insurgentes - também sunitas - da rede Al-Qaeda no Iraque.

No entanto, o analista afirma que a fragilidade da situação "é grande porque os motivos que originaram o conflito não foram resolvidos".

''Governo fraco''
Hiltermann diz não acreditar na seriedade da declaração do premiê Nouri Al-Maliki que, nesta semana, pediu para que seja estabelecido um prazo para a retirada dos soldados americanos do país.

"Essa é uma época em que é possível para o governo usar retórica vazia sem maiores conseqüências. Maliki sabe que seu governo é fraco e vem mostrando isso nos últimos meses, lançando ofensivas que só foram bem-sucedidas por causa da interferência dos americanos. A situação deve permanecer assim nos próximos tempos", disse ele.

A gradual transferência do controle das províncias do país das mãos dos americanos para o governo central iraquiano vem sendo freqüentemente adiada.

Apesar dos problemas, a redução da violência interna estaria contribuindo para a melhoria das relações externas do país, em especial com seus vizinhos sunitas.

Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Barein anunciaram que vão abrir representações diplomáticas em Bagdá.

Analistas afirmam que países árabes enxergavam com desconfiança o aumento no Iraque da influência política dos xiitas - seguidores do ramo do Islã predominante no Irã -, mas isso tem mudado devido a medidas recentes do governo iraquiano.

O fato de o xiita Maliki ter lançado ofensivas contra o Exército Mehdi foi considerado determinante para a mudança de imagem do governo central do país, segundo Hiltermann.

"Quando Maliki combate um desses grupos, ele é visto pelos sunitas não como um presidente sectário, mas sim um líder nacional", afirma ele.

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