Califórnia quer manter moradias em áreas sob risco de incêndio

Por Mary Milliken LOS ANGELES (Reuters) - Em menos de um mês, duas séries de incêndios florestais devastaram a mesma área na zona nordeste da Grande Los Angeles, destruindo centenas de casas e a boa vida oferecida pela combinação entre a beleza selvagem da Califórnia e as conveniências urbanas da metrópole da Costa Oeste.

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Visitando um acampamento para trailers nas colinas onde 500 lares foram destruídos pelo último incêndio, o governador Arnold Schwarzenegger disse no domingo: "Toda vez que há um incêndio assim nós aprendemos coisas novas."

Desta vez, segundo ele, o Estado aprendeu que deveria aplicar códigos de edificação mais rígidos para os trailers. Mas em momento algum o popular governador sugeriu que as pessoas não deveriam viver nas áreas de risco. Pelo contrário.

"Queremos que as pessoas saibam que o Estado está com vocês, vamos ajudá-los a recuperar suas casas e suas estruturas, recuperar suas vidas", disse Schwarzenegger.

Mais de mil casas foram destruídas desde a quinta-feira por causa do fogo que, alimentado pelo vento e o calor, atingiu a sofisticada localidade litorânea de Montecito, o subúrbio de Sylmar e várias comunidades no Condado de Orange.

Em Sylmar, alguns moradores expulsos de suas casas pelo fogo no fim de semana já tinham tido de fugir no mês passado, quando dois outros incêndios queimaram cerca de cem edificações em áreas vizinhas. Muitos desabrigados falam em reconstruir seus lares -- sejam eles humildes trailers ou opulentas mansões.

É comum nas grandes cidades dos EUA que as pessoas busquem a vida nos subúrbios para ter mais contato com a natureza -- ou porque os imóveis são mais baratos. O sul da Califórnia, graças ao seu clima, é um local especialmente procurado, e incorporadores levam seus condomínios cada vez mais para dentro do mato.

"Após cada incêndio, há uma comissão grande e premiada que tem um monte de recomendações, e aí voltamos e fazemos o mais fácil, esquecer até que aconteça de novo", disse Travis Longcore, professor da Universidade do sul da Califórnia, especialista em urbanismo sustentável.

Mesmo após o surgimento de 30 focos de incêndio que devoraram cerca de 2.000 casas no sul da Califórnia em outubro, deixando temporariamente 5.000 desabrigados, Longcore disse que o governo não dá sinais de adotar um planejamento mais rigoroso ou de taxar construtoras e compradores em áreas sob grande risco de incêndio.

"Falta-nos a vontade política de realmente dizer 'não', e até que isso mude nós vamos continuar vendo essas coisas acontecerem", disse ele.

A seca dos últimos anos intensifica o risco de incêndio, junto com aquilo que Longcore chama de "abundância de ignição humana."

Alguns incêndios são provocados naturalmente por raios, mas muitos outros ocorrem devido a queda de postes, acidentes com soldas, negligencia ou ação criminosa.

O custo do combate ao fogo nesta temporada já atingiu 300 milhões de dólares -- bem acima dos 206 milhões de toda a temporada de 2006-07. Schwarzenegger disse que o Estado tem condições de arcar com isso, apesar do elevado déficit público.

O que muitos californianos não sabem -- principalmente os mais velhos -- é se conseguirão suportar o custo emocional.

Na localidade de Yorba Linda, Arnold Caudill, de 69 anos, escapou por pouco das chamas, mas viu a casa onde passou 21 anos ser devorada pelas labaredas. Sobre a possibilidade de reconstrução, ele disse: "Ainda não pensei tão lá na frente. Tudo o que eu sei é que não gostei do jeito como me senti."

(Reportagem adicional de Dan Whitcomb e Steve Gorman)

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