Buzz, o Mané Fogueteiro

O mundo dos astronautas, no Texas, era o fim da picada. Acredite em mim.

BBC Brasil |

O centro espacial com sua vizinhança foi criado lá por influencia do vice-presidente Johnson, numa destas marmeladas politico-imobiliárias.

Eu era frequente visitante durante os voos da Apolo. Na época, o grupo Bloch estava próspero, a revista Manchete se esbanjava em cores espaciais, eu vivia entre Nova York e o Centro Espacial, uma hora ao sul de Houston.

Em volta da NASA, surgiram várias pequenas cidades artificiais, idênticas, sem sal, sanitizadas e insuportavelmente quentes em julho. Entrar e sair do ar condicionado dos hotéis e da NASA era um choque térmico. Durante o dia você não via ninguém nas ruas.

Depois que a Apolo 11 partiu da Flórida, voltamos para acompanhar a descida na Lua e o retorno dos astronautas no Texas e conheci um jornalista turco, inteligente, engraçado, completamente perdido. Ele estava em lua de mel na Suíça quando recebeu uma chamada do chefe com instruções para sair da cama, abandonar a mulher e partir para o Texas. Ser ignorante sobre o programa espacial americano não tinha a menor importância. Ele era o único que falava inglês e o jornal estava interessado "no lado humano " da história. Quem eram os lunáticos?
Adotei o turco. Nem carro tinha e usei a experiência dele como parte de uma das minhas matérias para a Fatos e Fotos. Fui com ele às casas dos astronautas em busca do "coração" daquela Brasília no Texas.

Armstrong

A casa do comandante Armstrong estava fora do alcance da imprensa. Inabordável. A vida do primeiro homem a pisar na lua era um tédio, um falso mistério, como o lado escuro do nosso satélite.

Ele teve atuações medalhadas como piloto de provas e na guerra na Coreia, era até boa pinta, com um sorriso bonito, mas, para a sociedade da fama e celebridade, era um desastre. Não tinha cheiro, nem gosto, nem papo, nem escândalos, enfim, o "lado humano". Era um robô.

Mesmo depois de aposentado da NASA ele continuou no lado escuro da lua, avesso à imprensa, eventos públicos e oba-obas. Quando soube que estavam vendendo os autógrafos dele por U$ 5 mil, parou de assinar qualquer papel. Quando a Hallmark, a maior fabricante de cartões dos Estados Unidos, criou um de Natal com a voz dele e a famosa frase "One small step..." ("Um pequeno passo para o homem..."), Armstrong processou, ganhou e mandou o dinheiro para caridade.

O barbeiro dele de 20 anos quis tirar uma casquinha na fama e vendeu uma chusma do cabelo do ex-astronauta por US$ 3 mil para um colecionador. Armstrong processou o barbeiro, que não conseguiu a chusma de volta, e teve de mandar US$ 3 mil para outra caridade.

Seu momento de extrema frieza não foi no espaço nem nos céus da Coreia. Na fazenda de Lebanon, em Ohio, o dedo da aliança ficou preso e foi decepado numa roda. O comandante recolheu o dedo, limpou, colocou no gelo e levou para a reconexão pelos cirurgiões de Kentucky.

Buzz Aldrin

A casa de Buzz Aldrin parecia deserta, nenhum guarda à vista e o turco apertou a campainha. Dona Aldrin veio à porta e antes que meu amigo terminasse a frase de apresentação, ela avisou que se não escafedêssemos ela chamaria a polícia. Na retirada, ele tirou umas fotos - parte da missão - do banal quintal da casa do segundo homem que pisaria na Lua . Esticou o pescoço em cima da cerca e clicou.

A polícia veio como um foguete e nos enquadrou. O turco assumiu a responsabilidade, mas tentou convencer o policial que só tinha invadido a propriedade do nariz para cima.

Ele anotou nossa placa e nos mandou sumir dali. Mais uma queixa e veríamos a Lua nascer quadrada. O turco me carregou para o salão de beleza para entrevistar a cabeleira da mulher do Buzz.

Quanta bobagem.

Nunca vi o que ele publicou mas cismou que o personagem era o Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, um passo certo para o anonimato, mas neste aniversario dos 40 anos da caminhada na Lua, Buzz é o cara, "o lado humano" do programa espacial. O turco estava certo.

Buzz, como Armstrong, não só lutou na Coreia como derrubou dois Migs-15 e fotografou, no ar, um dos pilotos ejetados do jato derrubado por ele.

Pelo plano original ele seria o primeiro homem a pisar na Lua, mas o desenho do módulo lunar favorecia a saída do comandante primeiro e Buzz nunca reclamou. Era militar, formado em West Point, terceiro lugar na turma.

Mas...foi o primeiro homem a comungar na Lua. Guardou o segredo e o cálice durante anos. Aposentou-se da NASA em 1972, mergulhou na depressão e no álcool. Hoje não é mais religioso e nas manhãs de domingo se reúne com um grupo que luta contra o alcoolismo.

Buzz diz que a depressão foi herdada do avô e da mãe, que se chamava Marion Moon. Ambos suicidaram-se, ela um ano antes do voo à Lua. Hoje, aos 79 anos, ele está livre das depressões e do alcoolismo. Conta a experiência no novo livro de memórias Magnificent Desolation.

O ex-astronauta está em grande forma física e mental. Já participou de desenhos animados, entre eles um auto-deboche nos Simpsons, foi a inspiração do personagem Buzz Lightyear do filme Toy Story e da série na TV, foi tema de ópera e de vários documentários.

Agora é cantor de rap num vídeo - The Rocket Experience - com Snoop Dog, produzido por Quincy Jones (na web o endereço é funnyordie.com). Uma pandega espacial.

Como é mesmo o nome do outro astronauta da Apolo 11?

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