Burundiano polui em média quase 400 vezes menos que americano

O Burundi é um dos países com o menor índice de poluição per capita do planeta. Uma pessoa no Burundi polui o planeta quase 400 vezes menos do que um americano, segundo dados do governo dos Estados Unidos.

BBC Brasil |

Em média, cada americano emite 19,78 toneladas de metro cúbico de CO2 por ano, de acordo com estatísticas da agência americana de energia Energy Information Administration. No Burundi, a emissão per capita anual é de apenas 0,05 toneladas.

Alguns fatores explicam porque o índice de emissões de CO2 é tão baixo no país. Em primeiro lugar, o Burundi ainda é um país essencialmente rural, com baixa atividade industrial. Em segundo lugar, o consumo de bens e comidas no país é baixíssimo, já que o Burundi é um dos países mais pobres do planeta.

O terceiro fator é uma certa distorção nos dados de emissões de CO2, que não levam em conta o desmatamento, um problema cada vez mais comum no país.

País rural
Com população total de 8,7 milhões de pessoas, o Burundi ainda é essencialmente um país rural. Menos de 4% da população total do país vive em Bujumbura, a capital e maior cidade. Apenas 10% das pessoas vivem em meios urbanos, onde estão concentradas as poucas indústrias do país.

A grande maioria dos burundianos vive no campo. Mais de 90% das pessoas vivem da agricultura de subsistência, plantando os alimentos que comem e vendendo o pequeno excedente em mercados e nas ruas. Com exceção de algumas grandes plantações de chá e café no norte do país, que respondem quase que exclusivamente pelas exportações do Burundi, todo o país funciona à base da agricultura de subsistência.

O resultado disso é que os alimentos são baratos e geram pouco CO2 no ambiente. Os agricultores plantam os alimentos para consumo próprio em terras alugadas. O excedente dos alimentos é vendido para o dono da terra, em pequenos mercados de rua ou de porta em porta na capital.

Durante o dia, as ruas de cidades como Bujumbura são tomadas por vendedores ambulantes de alimentos diversos como ovos, bananas e mangas. O transporte do alimento até o consumidor final também é ecológico, já que os ambulantes andam a pé ou de bicicleta.

Também não há emissão de CO2 por estocagem de alimentos em frigoríficos. Os burundianos praticamente só consomem frutas e verduras da estação a preços baixos. Uma manga vendida no outono, por exemplo, custa cerca de US$ 0,20. Nos Estados Unidos, o preço da mesma fruta - vendida o ano todo - pode ultrapassar U$ 2,00 a unidade. Parte do custo é atribuída ao transporte e estocagem do produto.

País pobre
A economia do Burundi ainda é o principal fator que faz com que o país tenha um baixo índice de emissões de CO2 per capita. Tanto na lista do FMI como do Banco Mundial, o Burundi tem a menor renda per capita nominal do planeta. A renda mensal média de cada burundiano é de pouco mais de US$ 9.

A economia do país já era uma das mais frágeis do mundo no começo dos anos 90, quando estourou a guerra civil no país. O Burundi passou por dez anos de declínio econômico, devido à guerra e a embargos comerciais de outros países da região. Nesse período, a renda per capita anual do Burundi desabou de US$ 180, em 1993, para US$ 110, em 2007, segundo dados do Banco Mundial.

Como resultado, mesmo as famílias com melhor renda no país não têm acesso a bens de consumo, como computadores e máquinas de lavar. É o caso de Willy Rwankineza e Espérance Iradukunda, uma família de classe média visitada pela BBC Brasil (assista ao vídeo).

O consumo de energia - um dos principais responsáveis por emissões de CO2 - também é baixo no Burundi, e boa parte da matriz energética do país é hidrelétrica, que gera pouco gás carbônico. A casa de Willy e Espérance, onde moram outras seis pessoas, consome cerca de 120 kWh mensais e paga menos de US$ 5 de conta de luz.

E mesmo assim, o consumo é limitado, já que não há energia no país para todos e o Burundi passa por uma grave crise energética. A luz é desligada diariamente das 22h às 6pm. A geladeira da família vive vazia e às vezes até desligada, porque não há condições de se estocar alimentos com tantas interrupções de luz.

Nos últimos meses, os apagões têm acontecido com mais frequência e sem aviso prévio. No mês passado, o ministro de Energia do país, Samuel Ndayiragije, foi demitido devido à crise energética no país.

Desmatamento
O terceiro fator que explica porque o Burundi tem uma baixa taxa de emissão de CO2 per capita é que o desmatamento de florestas não é contabilizado pelas estatísticas, o que gera uma certa distorção nos números.

Os dados de emissão de CO2 per capita disponíveis atualmente levam em consideração apenas o consumo total de combustíveis fósseis da população. Mas o desmatamento, que é uma atividade que emite muito CO2, não é calculado, já que em muitos países há poucos dados confiáveis sobre o assunto.

O Brasil sofre da mesma distorção. Cada brasileiro emite, em média, 2 toneladas de metros cúbicos de CO2 por ano, cerca de 40 vezes mais do que uma pessoa no Burundi. No entanto, esse número não leva em conta o desmatamento das florestas brasileiras. Estima-se que até 70% das emissões brasileiras são causadas por desmatamento.

No Burundi, a economia se expande com base na agricultura, gerando muito desmatamento. Estima-se que quase metade das floresta original do país foi desmatada. Além disso, a lenha é uma importante fonte de energia nas casas de muitos burundianos. Na casa de Willy e Espérance, por exemplo, não há fogão a gás ou elétrico. A comida é cozinhada com água esquentada a lenha, que é vendida por ambulantes.

* Confira amanhã uma reportagem sobre as soluções que estão sendo pensadas para os problemas nos Estados Unidos e no Burundi.

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