Bunker antiaéreo de Mussolini recebe mostra de arte contemporânea

Ivan Fombella. Roma, 26 mar (EFE).- O bunker antiaéreo que o ditador fascista Benito Mussolini construiu no bairro do EUR, em Roma, será usado, a partir desta quarta-feira, como galeria na qual se expõem obras de artistas contemporâneos.

EFE |

Nos 475 metros quadrados ocupados pelo abrigo subterrâneo são exibidos quadros e instalações dos artistas italianos Alfredo Rapetti, Fabiana Roscioli e Riccardo dalla Chiesa, dentro da mostra "Confrontações", organizada pela Prefeitura de Roma e pela galeria de arte Ca D'Oro.

Se o filme alemão "Queda: As Últimas Horas de Hitler" revelou ao imaginário popular o bunker no qual Adolf Hitler passou suas últimas horas, os italianos sabem há décadas que Mussolini ficou obcecado por sua segurança.

O Duce mandou construir, debaixo de sua residência privada, em Villa Torlonia, e sob seu escritório no Palácio Veneza, dois dos maiores abrigos subterrâneos de Roma, além do bunker do bairro do EUR.

Trata-se de um espaço opressivo, que contrasta com os locais onde se desfruta dos prazeres artísticos, com salas longas e estreitas divididas por pilares de cimento armado, e separadas do exterior por um muro de 20 centímetros e um vazio intersticial de 1,25 metro, entre o edifício externo e o bunker.

Situado debaixo do Palazzo degli Uffici, no bairro romano do EUR, erguido pelo Duce como sede da Exposição Universal de Roma de 1942 - que não aconteceu por causa da guerra -, a construção do bunker foi pedida pelo próprio Mussolini para proteger os funcionários e altos cargos que trabalhavam neste edifício.

O visitante tem acesso a ele por uma escada situada na lateral do edifício e que leva a uma porta blindada e à prova de gás.

A partir deste ponto, a arte se funde com os restos que lembram o horror da guerra e substitui os bancos de madeira saqueados após a guerra nos quais os refugiados aguardavam pelo fim dos bombardeios.

Segundo a sociedade EUR Spa, que administra os edifícios públicos deste bairro, o bunker podia abrigar até 300 pessoas, divididas de acordo com suas categorias profissionais.

Ainda é possível ver em algumas das salas vestígios de seu objetivo original, como duas bicicletas estáticas que deviam alimentar um dínamo que fornecesse energia a todo o complexo e ao sistema de ventilação.

Para isso, estava previsto que fossem feitos rodízios entre os que estivessem pedalando.

Além disso, na sala principal é possível ver elementos que lembram seu uso como quartel-general dos granadeiros de Sardenha do 1º regimento, que se prepararam para a defesa de Roma antes da chegada dos aliados, na Segunda Guerra Mundial.

Entre eles, uma máscara antigás, um calendário com a data de 8 de setembro de 1943, dia do armistício assinado pelo marechal Pietro Badoglio, e um manequim vestido com a indumentária desta corporação.

Os três artistas que participam da exposição buscaram integrar as obras em um espaço tão peculiar como este.

Fabiana Roscioli usa instalações de luz que tingem de vermelho e verde as paredes de cal do refúgio, e pinturas nas quais predomina o vermelho, enquadradas pelos cartazes originais nos quais se pedia aos ocupantes do bunker que mantivessem a calma e o silêncio durante os ataques aéreos.

Rapetti propõe uma coleção sob o nome de "Cartas desde a frente", que integra temas judeus, como estrelas de Davi, enquanto Dalla Chiesa se centra em figuras femininas que se distribuem de forma inovadora por todo o espaço do bunker, entre as vigas descobertas ou em frente às portas antigás. EFE if/db

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG