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Buenos Aires recupera seu particular Cinema Paradiso

Joan Faus. Buenos Aires, 20 fev (EFE).- Da mesma forma que Totó em Cinema Paradiso, o argentino Fábian Pérez passou grande parte de sua infância em um cinema de bairro que depois de 20 anos fechado será reaberto por ele em uma tentativa de resgatar o espírito lúdico do passado.

EFE |

Nos anos 40, escapando da instabilidade política espanhola, um galego chamado Manolo - é só o que se sabe de sua identidade - emigrou para Buenos Aires e se estabeleceu no bairro portenho de Villa del Parque, caminho repetido por muitos compatriotas.

Foi ali onde este espanhol comprou em 1950 uma sala chamada Cine Parque, com capacidade para 1,2 mil pessoas, que havia sido construída em 1939 e que se transformou rapidamente em um ponto de encontro para os moradores dessa região da capital argentina.

"O cinema era a alma do bairro, as pessoas passavam suas vidas em torno dele, foi uma testemunha excepcional das mudanças sofridas na Argentina até o fim dos anos 80", afirmou à Agência Efe Fabián Pérez, que impulsionou a reabertura da sala.

O galego Manolo administrou Cine Parque até fim dos anos 80, quando passou para as mãos de um novo proprietário que transformou a maior parte do local em galerias comerciais e reduziu o clássico cinema a pouco mais de 10% de sua capacidade, 150 poltronas.

A nova sala ficou aberta apenas alguns meses e depois voltou a ser fechada, como ficou por mais 20 anos. Agora, no dia 26 de fevereiro, o cinema voltará a exibir filmes através da iniciativa de Pérez.

Este argentino de 45 anos, cujos avôs conheceram o galego Manolo, se interessou pelo velho cinema de bairro em 2006 que "tanta magia e emoção" deu a ele na sua infância.

Após descobrir que a sala estava totalmente abandonada desde 1989, Pérez iniciou as gestões para conseguir sua reabertura.

Após solicitar sem sucesso ajuda do Governo argentino e da cidade de Buenos Aires, entrou em contato com a Junta da Galícia, o Governo desta região autônoma espanhola, recorrendo às origens galegas de Manolo e de sua própria família.

A resposta foi positiva e obteve um financiamento de 7 mil euros do Departamento de Cultura, dentro de um programa do ano santo Jacobeo.

Com esse dinheiro, Pérez reabilitou o cinema, que estava inundado, e comprou a tecnologia necessária para as projeções.

Buscando resgatar a magia daquele mítico cinema de bairro, a nova sala, que será chamada de Cine Parque Xacobeo terá na entrada uma bandeira espanhola e outra galega, projetará dois filmes seguidos que será precedido de um noticiário.

A sala mostrará cinema europeu e espanhol independente, especialmente os filmes e documentários que são aclamados no velho continente, mas dificilmente chegam à Argentina.

Pérez não descarta realizar algum ciclo com os clássicos que "iluminaram" o pequeno, como os americanos "Ben-Hur" (1959) e "A aventura de Poseidon" (1972) e os argentinos "La sonrisa de la mamá (O sorrido da mamãe, em livre tradução - 1972)"e "Así es la vida" (Assim é a vida, em livre tradução - 1977)".

Este cinéfilo lembra com nostalgia as incontáveis horas que passou durante sua infância no Cinema Parque, nas quais chegava a ver até três filmes seguidos e se fascinava, por exemplo, com a "magia" de Luis Buñuel e o "estilo" de Cary Grant.

"Meu pai me deixava às 14h na porta do cinema e me buscava às 21h", relembra o argentino, quem considera que aquela velha sala tinha uma "magia especial".

Esse é o mesmo sentimento que tomou conta de Totó em "Cinema Paradiso" (1988), o filme de Giuseppe Tornatore que retrata a Itália do pós-guerra através da história de uma criança que se encanta com o mundo da película pelas mãos de um ancião que manipulava o projetor do cinema de um pequeno povoado.

Pérez demonstra orgulho das similaridades entre ambas as histórias - a sua e a de Totó - e afirma que vai oferecer as mesmas "ilusões e sonhos" que a mítica sala italiana.

A reabertura do Cine Parque gerou muita expectativa no bairro de Villa del Parque e na cidade de Buenos Aires, na qual seguem de pé poucos cinemas clássicos, que se transformaram há anos em centros religiosos, supermercados e garagens. EFE jfa/dm

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