Brown fala sobre guerra do Iraque e diz que país representava ameaça

Londres, 5 mar (EFE).- O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, assumiu hoje sua parcela de responsabilidade na decisão de envolver o país na invasão do Iraque em 2003 ao alegar que o país árabe representava então uma ameaça.

EFE |

Durante seu discurso na comissão de investigação sobre a Guerra do Iraque, Brown - ministro das Finanças, à época - também negou categoricamente que poupava despesas para cobrir as necessidades do Exército.

Como aconteceu com o ex-premiê britânico Tony Blair em janeiro, também não houve hoje espaço para arrependimentos durante as mais de quatro horas de discurso do chefe do Executivo do Reino Unido diante da chamada comissão Chilcot.

Como responsável pelos cofres britânicos durante uma invasão cujo pretexto foi encontrar armas de destruição em massa que nunca apareceram, Brown teve que prestar contas de maneira exaustiva sobre dois assuntos que ainda despertam dúvidas.

O primeiro, as supostas restrições que impôs às verbas orçamentárias destinadas às Forças Armadas britânicas. O segundo, seu grau de envolvimento na decisão política de envolver seu país em uma guerra para derrubar o regime de Saddam Hussein.

Brown, que sempre quis se distanciar do chamado "núcleo duro" do Governo Blair, o que apoiou os Estados Unidos no ataque ao Iraque, não hesitou ao tachar de "correta" tal decisão e afirmar que foi tomada por "razões adequadas".

Apesar de reiterar que sempre encarou a intervenção militar como "último recurso" após o esgotamento das vias diplomáticas, em nenhum momento o primeiro-ministro evadiu de sua responsabilidade na gestação do conflito.

Brown defendeu a gestão de Blair, seu antecessor, e assegurou que o gabinete de ministros foi "bem informado" sobre os passos prévios à guerra, mas deixou claro que não esteve presente "em todas as reuniões" e que seu papel se restringiu a essencialmente atuar nos assuntos econômicos.

"Tudo o que Tony Blair fez durante esse período, o fez da maneira adequada, e tive toda a informação de que precisava para tomar minhas decisões", ressaltou.

Após ser assessorado por Lord Goldsmith, então procurador-geral do Estado, Brown ficou convencido de que o Iraque representava uma "ameaça", assim como da "legalidade" da guerra.

O primeiro-ministro disse que também se apoiou em relatórios dos serviços de inteligência.

Em relação ao outro grande tema de seu discurso, os supostos cortes no orçamento militar, Brown negou categoricamente que sua pasta economizasse em despesas para enfrentar uma guerra.

O primeiro-ministro mencionou as reuniões que teve em junho de 2002 para falar dos preparativos para uma possível operação militar com o então ministro da Defesa, Geoff Hoon, inimigo político de Brown dentro do trabalhismo.

Desta forma, Brown se referia aos documentos publicados por diversos veículos de imprensa segundo os quais vetou verbas para o envio adicional de helicópteros para o Iraque e o Afeganistão, o que supostamente expôs as tropas britânicas a mais riscos.

"Respondemos a cada pedido de equipamento militar feito pelos responsáveis militares. Nenhum deles foi negado", garantiu o primeiro-ministro.

No entanto, esclareceu que não dependeu dele "tomar as decisões militares no terreno sobre o emprego de um tipo particular de veículos", em resposta aos que criticaram a utilização dos Snatch Land Rover, considerados pouco seguros.

No entanto, Menzies Campbell - líder dos liberal-democratas, terceira força política britânica - afirmou hoje que sua "eloquente atuação" não pode "ocultar o fato de que a despesa militar foi inadequada, os relatórios dos serviços de inteligência, defeituosos, e que não havia armas de destruição em massa".

Quanto à reconstrução do Iraque, Brown admitiu que sempre acreditou no "esforço internacional" para conseguir este objetivo.

O primeiro-ministro admitiu que um de seus "pesares" foi não ter "insistido" mais com os EUA que o planejamento da reconstrução era tão "essencial" como os preparativos para a guerra.

Em princípio, os responsáveis pela comissão decidiram que Brown testemunharia após as eleições gerais no Reino Unido, que devem acontecer no máximo até 3 de junho, para evitar interferências na campanha eleitoral. Entretanto, as fortes pressões midiáticas e políticas motivaram que o próprio pedisse para depor antes das eleições.

O discurso de Brown pode ser elemento-chave na campanha eleitoral, já que a sociedade britânica se opôs de forma arrasadora à invasão do Iraque e contiua questionando a qualidade do equipamento militar do Reino Unido por causa da morte de mais de 100 soldados do país no Afeganistão em 2009. EFE prc-ja/bba

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