Brown enfrenta congresso de despedida em um clima de pessimismo

Judith Mora Londres, 26 set (EFE).- O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, enfrenta a partir de amanhã o que pode ser seu último congresso como chefe do Governo e líder dos trabalhistas, em um ambiente de claro pessimismo entre os filiados graças à perspectiva, confirmada pelas pesquisas, de derrota nas próximas eleições.

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Em vésperas do início da reunião anual de delegados, realizada até 1º de outubro na localidade litorânea de Brighton, não se percebem debates internos nem conspirações para derrubar ao líder, que já advertiu em numerosas ocasiões que não tem intenção de deixar o poder antes de passar pelas urnas.

"Embora não o admitam publicamente, muitos deputados já jogaram a toalha" para as eleições de junho de 2010, declara a Efe o analista em política da London School of Economics (LSE) Tony Travis.

Para Travis, o congresso deste ano se apresenta relativamente tranquilo e marcado por "um resignado pessimismo", onde provavelmente não irão afetar demais as tentativas de última hora de alguns membros, como o ex-ministro Charles Clarke, de ressuscitar a polêmica para forçar a renúncia de Brown.

Conhecido "blairista", Clarke aconselhou há poucos dias ao primeiro-ministro que renunciasse "por dignidade" e para evitar uma catástrofe eleitoral - lhe sugeriu inclusive que declarasse problemas de saúde -, ao que o chefe do Governo respondeu, mais uma vez, que estava em boa forma e tinha "trabalho que fazer".

Embora fosse certa a profecia de Clarke que se Brown é o candidato trabalhista nas eleições o partido se arrisca a mais de uma década na oposição, segundo Travis "pouco se pode fazer a estas alturas".

Após várias tentativas nos últimos meses de dar um golpe interno e substituí-lo - pelos ministros Alan Johnson ou David Miliband -, agora não parece haver nenhum voluntário disposto a oferecer-se para tão mal-agradecida tarefa.

"Seja quem seja o candidato trabalhista, tudo aponta para que o que o partido perca as próximas eleições legislativas", afirma Travis.

"As enquetes lhes dão um apoio de 20% a 25%, muito baixo para um dos maiores partidos do país e também parece que o eleitorado britânico, como costuma fazer de vez em quando - o fez em 1997 com os conservadores - já decidiu que quer uma mudança" afirma o especialista.

Com sua militância sob mínimos - segundo dados da Comissão Eleitoral, caiu 39%, a 166.247 filiados, desde antes da Guerra do Iraque - e poucas doações, a formação depende do apoio econômico e moral dos sindicatos, que, frustrados pela falta de políticas de esquerda, já hão anunciado várias manifestações para a jornada inaugural do congresso.

Muitos dos problemas de Brown são herdados, como a polêmica guerra do Afeganistão e a impopularidade do partido (que ganhou em 2005 com uma participação de só 36%), mas ele não foi capaz de mudar o rumo.

Em parte, aponta Travis, isto se deve a que "não tem dotes de comunicador", ao contrário que Blair e, em boa medida, o líder dos conservadores, David Cameron (a quem se dá já por futuro primeiro-ministro), e embora trabalhe duro e colheu algum êxito, "não soube capitalizar".

Inclusive sua gestão, reconhecida internacionalmente pela crise, fica denegrida pelo fato de que "todo o mundo sabe que ele era ministro da Economia quando se construiu o sistema financeiro que acaba de derrubar-se", assinala o acadêmico.

Talvez no congresso de 2010, se os trabalhistas perderem as eleições, haja "um banho de sangue" - prevê -, mas este ano, em Brighton, se espera um ambiente muito diferente: "não lhes resta outra opção senão apertar os dentes e engolir a seco". EFE jm/fk

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