LONDRES - Um ex-subcomissário adjunto da Scotland Yard que deixou o cargo após a morte de Jean Charles de Menezes está disposto a dar um depoimento revelador sobre a morte do brasileiro caso seja chamado a testemunhar, segundo o jornal londrino Evening Standard.

O comissário-chefe da Scotland Yard, Ian Blair, tenta impedir que seu ex-colaborador, Brian Paddick, testemunhe na investigação da morte de Jean Charles, assassinado a tiros em julho de 2005 por agentes especiais da Polícia, que o confundiram com um terrorista suicida.

Seu testemunho nessa investigação, que terá início no dia 22 de setembro em Londres, poderia ser impactante tanto para a Polícia Metropolitana quanto para seu principal responsável, que até agora resistiu a todas as tentativas de deixar seu cargo.

Paddick figura entre as testemunhas apresentadas ao juiz pelo advogado Michael Mansfield, que representa a família do brasileiro, mas, segundo o jornal, os advogados da Scotland Yard e da Polícia realizam manobras em segredo para impedir seu comparecimento no julgamento.

Os advogados da Polícia Metropolitana argumentam que o eventual testemunho de Paddick não é relevante para determinar as circunstâncias da morte de Jean Charles.

Após criticar a versão dada pela Scotland Yard sobre o caso, Paddick deixou seu cargo após denunciar Ian Blair por tê-lo colocado de lado.

Uma investigação anterior independente chegou à conclusão que Ian Blair não tinha dito a verdade sobre a morte do brasileiro.

Segundo o "Evening Standard", se finalmente for chamado para testemunhar, Paddick está disposto a expor sua versão sobre o modo como a operação ocorreu e as ordens que os agentes tinham de disparar.

A chamada Operação Kratos foi desenvolvida pela Polícia como tática contra os terroristas suicidas e permite que policiais atirem na cabeça de um terrorista sem prévio aviso para que ele não tenha tempo de reagir.

Jean Charles foi morto a tiros em 22 de julho de 2005, logo após subir no vagão do metrô, um dia depois dos atentados terroristas fracassados de Londres.

Desde o princípio, se pensou que os agentes tinham empregado a operação Kratos pelo modo como mataram o brasileiro, fato negado pela Scotland Yard.

Segundo o "Evening Standard", fontes próximas à família de Jean Charles afirmaram nesta sexta-feira que Paddick tinha recebido treino no auge da operação Kratos e estava a serviço da Scotland Yard no dia da morte do brasileiro.

Um total de 44 policiais, além dos que mataram Jean Charles e outros envolvidos na operação, obtiveram garantias por parte dos investigadores de que poderão testemunhar anonimamente.

Entre as pessoas que serão chamadas para prestar declarações, está a subcomissária adjunta Cressida Dick, que dirigiu a operação contra o jovem imigrante brasileiro, mas ainda não está claro se também será pedido o comparecimento do próprio Ian Blair.

Na investigação, os dois policiais que mataram Jean Charles prestarão seus testemunhos pela primeira vez.

No último dia 1º de novembro, a Polícia Metropolitana foi declarada culpada por descumprimento da lei britânica sobre Segurança e Higiene no Trabalho, que obriga as forças da ordem a zelar pela integridade física inclusive daqueles que não são seus empregados.

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