Bric exige mais influência, mas evita falar de dólar

Por Gleb Bryanski e Guy Faulconbridge ECATERIMBURGO, Rússia (Reuters) - Os líderes dos maiores mercados emergentes do mundo exigiram nesta terça-feira, em sua primeira cúpula, mais influência no sistema financeiro global, mas evitaram qualquer crítica à dominância do dólar.

Reuters |

A cúpula do chamado Bric, sigla para Brasil, Rússia, Índia e China, terminou com breves comentários do presidente russo, Dmitry Medvedev, e com um comunicado que exigiu mais poderes para os países em desenvolvimento em instituições financeiras internacionais e na Organização das Nações Unidas (ONU).

Mas não foram mencionadas duas importantes iniciativas de Moscou: um papel menor para o dólar e uma moeda supranacional como reserva de valor. Ainda assim, uma fonte da delegação russa disse à Reuters que os ministros de Finanças e os bancos centrais do grupo devem trabalhar em propostas sobre moedas de reserva.

"Estamos comprometidos em avançar na reforma das instituições financeiras internacionais para refletir as mudanças na economia mundial", disseram os países no comunicado conjunto.

"Os países emergentes e em desenvolvimento precisam ter voz e representação maiores nas instituições financeiras internacionais", acrescentou o texto. "Nós também acreditamos que há forte necessidade de um sistema monetário internacional estável, previsível e mais diversificado."

Na preparação para a cúpula, o Kremlin afirmou que a agenda incluiria a necessidade de mais moedas de reserva de valor e a expansão dos Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mas a China --que possui quase 2 trilhões de dólares em reservas em moeda estrangeira-- ficou calada, indicando pouca unidade em qualquer possível desafio para o dólar. Com as gigantescas aplicações em títulos do Tesouro norte-americano, Pequim não quer derrubar o valor de seus investimentos.

"Não espere qualquer iniciativa de curto prazo com respeito ao dólar", disse à Reuters Roberto Mangabeira Unger, ministro brasileiro para Assuntos Estratégicos, após a cúpula.

"Todos estão preocupados com a sensibilidade da questão. Ninguém quer dizer coisas ou fazer coisas que poderiam aumentar a volatilidade na circunstância de uma crise."

Analistas afirmam que a semelhança entre os quatro países do Bric praticamente se resume ao robusto crescimento econômico dos últimos anos. Suas posições políticas e prioridades globais diferem muito e diplomatas se perguntam se o fórum poderia impulsionar posições fortes e unidas.

Nesta terça-feira, o dólar caiu em relação a várias moedas em meio à pressão proporcionada pelos comentários da Rússia que sugeriam a necessidade de uma outra reserva mundial de valor.

"O quadro atual de moedas de reserva, incluindo o dólar, fracassou em cumprir suas funções", disse o presidente Medvedev em entrevista a jornalistas na cidade russa de Ecaterimburgo antes da cúpula do Bric.

"Nós não vamos conseguir sem moedas de reserva adicionais", declarou, acrescentando que uma reserva supranacional também é uma opção diante da importância cada vez maior dos Direitos Especiais de Saque do FMI.

CONSTRUINDO O BRIC

O termo Bric foi proposto pelo economista do Goldman Sachs Jim O'Neill em 2001 para descrever o poder cada vez maior das economias emergentes. A cúpula desta terça-feira era uma tentativa de dar ao grupo uma voz mais forte no mundo.

"Nós conversamos sobre tornar mais justo o processo de tomada de decisões sobre as questões internacionais mais importantes --na agenda econômica, na agenda de política internacional sobre segurança", disse Medvedev ao fim do encontro. "A cúpula Bric precisa criar as condições para uma ordem mundial mais justa."

Os outros presidentes se sentaram perto de Medvedev enquanto ele fazia eu último comentário.

Os países do Bric representam 15 por cento dos 60,7 trilhões de dólares da economia global, mas o Goldman Sachs prevê que em 20 anos os quatro países podem superar o G7 e a China pode ter uma economia maior que a dos Estados Unidos.

O principal assessor econômico de Medvedev, Arkady Dvorkovich, pediu que o FMI amplie a cesta dos Direitos Especiais de saque para incluir o iuan e moedas ligadas a commodities, como o rublo russo e os dólares australiano e canadense, além do ouro.

O Direito Especial de Saque é um ativo internacional de reserva para os países-membros do FMI, e tem uma taxa de câmbio determinada por uma cesta de moedas que atualmente inclui dólar, euro, iene e libra. Está prevista uma revisão da cesta em novembro de 2010.

"A economia mundial vai crescer... Nós estamos certos de que o crescimento vai voltar no futuro. Esse bolo do crescimento deve ser dividido de um jeito mais justo. Nós não estamos falando de excluir o dólar, mas a parcela de outras moedas deveria aumentar", disse Dvorkovich antes da reunião.

Os líderes do Bric debateriam sobre o investimento de suas reservas em moedas de outros países do grupo, abertura do comércio bilateral em moeda doméstica e acordos de swap cambial, acrescentou.

O presidente chinês, Hu Jintao, ficou em silêncio sobre as ideias do Kremlin a respeito das moedas, o que poderia ser mais um sinal das divisões no Bric.

A falta de uma menção ao dólar no comunicado final parecia novamente realçar as diferentes posições do Bric sobre como deve ser feita a reforma do sistema monetário mundial.

A Rússia tem falado muito mais alto do que os outros países do grupo contra a dominação dos Estados Unidos no sistema financeiro global. Os demais se colocam a favor de uma abordagem mais cautelosa e diplomática.

A primeira resposta do mundo desenvolvido à iniciativa russa veio do Japão, onde o ministro das Finanças, Kaoru Yosano, reiterou sua visão de que o dólar deve continuar como principal moeda de reserva de valor do mundo.

(Reportagem adicional de Oleg Shchedrov na Rússia e Todd Benson em São Paulo)

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG