Sentimento de desigualdade e desunião fomenta preconceito contra estrangeiros e estimula ideário do Terceiro Reich

Há exatos 20 anos, um documento entrava em vigor para enterrar definitivamente uma guerra tensa e silenciosa e o começo de uma nova história. Em 3 de outubro de 1990, o Tratado de Reunificação da Alemanha formalizava a união entre a República Democrática Alemã, no Leste comunista, e a República Federal da Alemanha, no Oeste capitalista, ato aguardado com ansiedade por um povo dividido ao longo de toda a Guerra Fria (1947-1991).

A reunificação dos territórios, no entanto, trouxe à luz não apenas o desejo de mudança, mas também diferenças econômicas, sociais e, principalmente, culturais entre o Leste e o Oeste. E esforços e subsídios iniciais para tornar a parte Oriental mais similar à Ocidental acabaram não sendo suficientes para apagar do passado um sentimento xenófobo, que ditou rumos da Segunda Guerra (1939-1945).

Partidários do NPD, legenda de extrema direita, em campanha na Alemanha (foto de arquivo)
AP
Partidários do NPD, legenda de extrema direita, em campanha na Alemanha (foto de arquivo)
“A reunificação fomentou o neonazismo, com a deterioração de aspectos sociais para muitos alemães que perderam seus empregos”, observou Udo Ludwing, do Instituto de Pesquisa Econômica de Halle, no Leste alemão. “O Leste continua atrás do Oeste em muitos indicadores, especialmente econômicos. A parte Ocidental detém 75% do nível de produtividade e consumo per capita, enquanto a Oriental apresenta desemprego em alta”, explicou.

Hoje, mesmo depois de avanços notáveis e progressos econômicos – no segundo trimestre deste ano, a Alemanha apresentou o maior crescimento em duas décadas, de 2,2% do PIB –, propósitos de igualdade e união ainda parecem distantes e soam como utopias. “O muro ainda está na cabeça das pessoas”, avaliou Antônio Andrioli, doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück, na Alemanha. “Mais do que o sentimento de desunião, há discriminação e, na cabeça dos alemães, a divisão continua.”

A porção Ocidental do país, ressaltou o especialista, é muito mais concisa em relação à Oriental. Aliado a isso, há mais desemprego no Leste, que é palco de isolamento, diferenças econômicas e pobreza. “Um quadro propício para a xenofobia contra árabes, turcos, poloneses e pessoas da extinta Iugoslávia”, disse.

Simpatizante do NPD, partido que se saiu bem nas últimas eleições alemãs, em setembro de 2009 da Alemanha (foto de arquivo)
AP
Simpatizante do NPD, partido que se saiu bem nas últimas eleições alemãs, em setembro de 2009 da Alemanha (foto de arquivo)
Brecha

Para Rand C. Lewis, especialista em geopolítica que serviu às Forças Armadas americanas e autor de The Neo-Nazis and The German Unification (Os Neonazistas e a Unificação Alemã, em tradução livre), a junção das duas partes possibilitou também que neonazistas dos dois lados se encontrassem. “O governo foi pouco eficaz em conter o extremismo, e o movimento neonazista se tornou mais agressivo no Leste. Essa parte do território ainda busca se ajustar a uma nação unificada”, avaliou. “À medida que houver desemprego entre os jovens que se opõem a influências estrangeiras na Alemanha, haverá uma brecha para neonazistas ganharem apoio”, disse.

Distante da época do Terceiro Reich de Adolf Hitler, clãs neonazistas têm representações políticas, como o Partido Nacional Democrata (NPD), e utilizam em seu front skinheads que têm se espalhado pela Europa – como pela região escandinava e o norte da Europa, onde são menos visados.

Bem organizados, na Alemanha grupos extremistas têm crescido à margem do permitido por leis que proíbem qualquer menção ao Terceiro Reich. “Apesar de todos saberem que o NPD está em contato com grupos de orientação contrária ao que permite a lei, o partido entrou na disputa eleitoral e se saiu bem nas últimas eleições (em setembro de 2009)”, disse Melani Schröter, da Universidade de Reading, no Reino Unido.

Os movimentos xenófobos têm sido mais fortes no sul e leste. Enquanto na porção ex-comunista o fenômeno parece ser mais comum em áreas urbanas por ter mais jovens envolvidos, na Bavária e na Saxônia as fronteiras com a República Checa e com a Áustria, respectivamente, fazem com que a aversão a estrangeiros esteja presente também em outros setores da sociedade.

Sentimento

Em meio a diferenças econômicas e um forte sentimento de desunião, a sensação é de que a reunificação completa ainda está por vir. “Para o país voltar a ser um teria de ocorrer um processo de unificação que ainda não houve. A Alemanha Ocidental simplesmente anexou um território, em um movimento em que o outro lado teve de abrir mão de seus valores, símbolos e bandeira para estar em outro país”, disse Andrioli.

Para analistas, um desenvolvimento uniforme nos dois lados seria uma das chaves para dar fim a movimentos neonazistas dentro da Alemanha. “É preciso um desenvolvimento econômico forte no leste para que se complete o processo de reunificação. Há um sentimento de desunião entre nós”, observa Ludwing. “A unificação real ajudaria a minar o neonazismo”, concluiu.

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