Brasileiros tentam voltar à vida normal após ciclone na Austrália

Tempestade Yasi deixou rastro de destruição, ao menos um morto e milhares de residências sem energia elétrica

BBC Brasil |

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A destruição causada pela passagem do ciclone Yasi pelo Estado de Queensland, na Austrália, há dois dias, marcou os brasileiros que vivem na região.

O gaúcho Alex Ramos, de 37 anos, é funcionário de um hotel de luxo em frente à praia na cidade de Cairns e já havia sido treinado para enfrentar ciclones. Ainda assim, ele diz que nunca pensou que fosse enfrentar situação parecida.

Arquivo pessoal
Alex Ramos é funcionário de um hotel de luxo em frente à praia na cidade de Cairns, na Austrália
"Soube pelo meu chefe que um enorme ciclone estava a caminho da costa e que deveríamos nos preparar para o pior. Não levei muito a sério, achei que era um pouco de exagero", conta Alex. Ele diz que só começou a se preocupar quando viu que os australianos estavam assustados. "Liguei para a minha filha no Brasil e para o meu sobrinho, mas não falei nada sobre o ciclone. Queria ouvir a voz deles. Eu estaria mentindo se dissesse que não tive medo."

O Yasi foi o pior ciclone a atingir a Austrália. De acordo com o balanço preliminar, um rapaz de 23 anos morreu, um outro está desaparecido e 150 mil residências ainda estão sem energia elétrica. Os danos materiais já passam de 1 bilhão de dólares australianos (R$ 1,7 bilhão). A limpeza das cidades está sendo feita por milhares de voluntários.

De acordo com Alex, os funcionários do hotel começaram a preparar as portas e janelas do estabelecimento, que estava lotado, com antecedência para suportar o vento forte do ciclone. "Enchemos as banheiras dos quartos com água, para o caso de desabastecimento, e depois recolhemos todas as garrafas de água mineral dos frigobares para termos um bom estoque de água potável”, lembrou.

O gaúcho explica que no meio do hotel há um salão à prova de ciclones, projetado para servir de abrigo para todos os hóspedes e funcionários. "De hora em hora recebíamos, da direção do hotel, orientação sobre o que fazer ou como proceder."

Noite inesquecível

Às 11 horas da noite de quarta-feira, Alex se reuniu com outros três brasileiros que também trabalham no hotel em um quarto no 11º andar. Lá estavam também as esposas e namoradas deles.

"Ficamos esperando o pior. Ouvíamos, lá fora, um barulho diferente do vento que aumentava a velocidade a todo instante. Nós nunca tínhamos vivido uma situação igual àquela. Pela janela, víamos as árvores sendo jogadas de um lado pro outro e chovia torrencialmente", relembra o gaúcho. "Já passava de uma da manhã, quando resolvemos ir deitar. Dormimos pouco. Pela manhã, olhei pela janela e vi as ondas do mar invadindo a avenida litorânea, que já estava cheia de areia. Nas ruas próximas, árvores caídas e galhos arrancados pela força do vento. Foi uma noite inesquecível", disse.

Alex acredita que o preparo dos australianos para enfrentar uma situação de desastre natural foi o grande responsável por não ter havido uma tragédia. "A TV não parava de mostrar o que deveríamos fazer, onde nos esconder, como nos proteger na hora que o ciclone chegasse e o que deveríamos estocar em casa. Aqui, com três dias de antecedência a gente começa a ver os preparativos e a organização funciona. No Brasil nós não temos isso, o governo só se mexe para recolher os mortos e catar o lixo."

Há dois anos e meio na Austrália, Alex diz que não pretende voltar ao Brasil, porque prefere "enfrentar um ciclone categoria 5 uma vez por ano em Cairns, do que um assalto em cada esquina no Brasil".

Prateleiras vazias

Já a baiana Rosa Dias, de 25 anos - há 10 meses morando em Cairns - passou a noite do dia 2 de fevereiro com o namorado australiano e a família dele, no norte da cidade.

Rosa estuda Administração de Negócios e soube da chegada dos ciclones pela televisão. Como Alex, Rosa também não levou muito a sério as notícias sobre o Yasi. Ela começou a se preocupar quando foi ao supermercado para comprar água e alimentos para estocar em casa e encontrou prateleiras vazias. "Foi aí que eu comecei a ficar assustada e senti um pouco de medo", lembrou.

Segundo Rosa, terça e quarta-feira foram dias de preparação para enfrentar o ciclone Yasi. "Reforçamos as portas e janelas, amarramos tudo o que podia voar e guardamos as motos dentro de casa. Estávamos esperando o pior. A noite estava muito estranha: fazia muito calor, não havia vento e não chovia. Era uma expectativa muito grande. De repente, começou a ventar forte. Lá de fora vinha um barulho muito diferente do vento a que estamos acostumados, era como se fosse um motor girando alto", disse a brasileira.

Sem energia

"Senti muito medo, pois a porta da casa é toda de vidro e as janelas são grandes. Graças a Deus o ciclone desviou de Cairns e o vento só chegou a 100 km/h. Dormi um pouco, logo cedo fui olhar os estragos na rua. Vi árvores arrancadas pela raiz, galhos espalhados por todos os lados. No quintal da casa do meu namorado tem uma piscina e dentro dela estava uma árvore."

A região onde Rosa mora ainda está sem luz. Ela vai todos os dias ao supermercado para comprar os alimentos. "Não há gelo para comprar em lugar nenhum. Compramos muitos enlatados, pois eles não estragam, ou consumimos tudo o que cozinhamos", contou ela.

A vida em Cairns está começando a voltar ao normal, mas as ruas estão vazias. "As pessoas estão em casa, limpando as coisas e tentado reorganizar a vida", contou.
Agora, Rosa Dias está preocupada com os outros três ciclones que devem atingir a costa de Queensland ainda este ano, segundo o Instituto de Meteorologia.

"Nós tivemos muita sorte dessa vez quando ciclone desviou de Cairns, mas será que vamos ter a mesma sorte da próxima vez? Não sei. Talvez eu volte para o Brasil."

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