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Brasileiro que lutou no Afeganistão diz que guerra é matar para não morrer

Para a maioria dos brasileiros, a guerra contra o terror parece uma realidade distante. Para um paulistano, no entanto, o conflito fez parte de sua rotina. Ele vivenciou o cotidiano de um campo de batalha. Lutou, matou e quase morreu pelo Exército da Espanha na guerra contra os talebans do Afeganistão. O até então adolescente se tornou um homem capaz de matar para não morrer, como ele próprio lamenta.

Gregório Russo, repórter do Último Segundo |

Ricardo Sanchez Perrenoud tinha 18 anos quando, em 2003, resolveu viajar para a Espanha para, segundo ele, explorar novas possibilidades, conhecer outras culturas, se aventurar e rever parentes. Chegando ao país, sentiu-se atraído por anúncios do exército espanhol que "vendiam" tudo o que procurava. Como tinha dupla nacionalidade e estava empolgado pela aventura, decidiu fazer o teste para ingressar nas Forças Armadas. Passou e ingressou no grupo de elite do exército espanhol ¿ "Caçadores da Montanha ¿ Unidade de Elite".

O começo, segundo seus relatos, foi difícil. "Nos quatro primeiros meses eu tive que dormir em barracões com muitas beliches. Era um regime de muita disciplina. Ganhava apenas 300 euros (cerca de R$ 750) e tinha que mandá-los para o Brasil, para pagar a passagem. Durante esse tempo eu comia e vivia só no alojamento", disse.

A situação do novo soldado só começou a melhorar quando o período de treinamento acabou. "Depois desses quatro primeiros meses, tudo ficou melhor. Eu já tinha o respeito dos meus companheiros e ganhava um dinheiro bom, suficiente para me manter na Espanha e mandar um pouco para minha família", completou.


Ricardo fez parte da unidade de elite "Caçadores da Montanha" / Arquivo pessoal

A rotina no quartel

A rotina militar, segundo seus relatos, era intensa. Havia treino diário, sem descanso e em diferentes terrenos "No exército treinávamos todos os dias, 15 dias no quartel dentro da cidade e 15 fora, nas montanhas". 

"O regime era disciplinado, todos sabiam o que tinham que fazer", disse. "Nos períodos mais intensos, dormíamos pouco e treinávamos muito. A preparação do exército espanhol para com seus soldados é impecável. Muitas vezes, soldados de outros países, a maioria britânicos, vinham fazer treinamento conosco e não agüentavam a pressão", brincou.

O chamado para a guerra

A notícia de que seu pelotão seria mandado para a guerra do Afeganistão veio de surpresa, em 2005. "Estávamos em um treinamento de sobrevivência na neve. Repentinamente chega um comunicado à nossa base falando que deveríamos retornar ao quartel imediatamente. Quando chegamos lá, nos deparamos com tanques de guerra, minas e armamento pesado", afirmou.

Neste momento, segundo Ricardo, ficou um "clima tenso no ar". O oficial mandou que a tropa ficasse em posição de sentido. Quando todos estavam em suas posições, veio a notícia de que os EUA estavam enfrentando dificuldades no Afeganistão e que a Espanha iria ajudá-los na "guerra contra o terror".

Em nenhum momento Ricardo queria ir para a guerra. "Eu fui para o exército motivado pelos treinamentos de rapel, escaladas e outras coisas que sempre gostei muito, nunca imaginei que fosse parar no Afeganistão e guerrear", disse.

"Estávamos treinados e sabíamos que isso podia acontecer, mas mesmo assim é duro receber uma notícia dessas", declarou.

Os "Caçadores da Montanha", pelotão de Ricardo, tinham apenas 15 dias, após a data do anúncio, para treinar o máximo possível, conhecer o terreno e cultura dos afegãos antes de seguir para território hostil.

Assim foi feito. "Tivemos 15 dias de preparação específica. Nesse tempo, treinamos o máximo possível. Analisamos o terreno, pontos fortes e fracos dos nossos inimigos e tudo mais que podia nos beneficiar durante os confrontos", declarou.


Ricardo (2º da esq. para a dir.) posa para foto com parceiros de guerra / Arquivo pessoal

Embarque e rotina no Afeganistão

O dia do embarque chegou e todos os soldados estavam prontos para a missão mais difícil de suas vidas. "Naquela noite, não consegui dormir direito pensando no que me esperava. De manhã, tomamos o café e nos vestimos para embarcar. Saímos da base em direção ao aeroporto de Zaragoza. Foi emocionante. Estávamos vestidos com roupa de gala, com todas as pompas e honrarias de homens que estavam saindo para defender seu país", disse.

"Vi pais abraçando filhos, filhos abraçando mães, irmãs, tios, enfim. Foi tudo muito bonito e emocionante", complementou.

"Assim que chegamos ficamos em uma base italiana. Ficamos sete dias descansando, sem ir para confronto em campo. Ficávamos na base limpando as armas e fazendo atividades internas", disse. "Assim que acabou esses sete dias, passamos a ser o 'grupo do alerta', ou 'green alert' (alerta verde). Ou seja, seríamos o primeiro pelotão a deixar a base caso necessário, completou. 

Segundo Ricardo, o "green alert" só era acionado quando a situação ficava realmente crítica, como soldados correndo risco de vida em confronto com os talebãs (milícia armada que dominava grande parte do Afeganistão), por exemplo.

"Quando o alerta era tocado, tínhamos que estar nos carros com todo o armamento e munição, preparados para qualquer coisa. Eram momentos de tensão, pois nunca sabíamos o que íamos enfrentar", disse. 

Havia também as patrulhas de rotina, em que os soldados saíam das bases para fazer diligências pelo país a procura de suspeitos de terrorismo. "Nessas patrulhas nós parávamos carros suspeitos e abordávamos pessoas que pudessem nos trazer algum risco. As patrulhas eram muito perigosas, pois éramos alvos em potencial dos inimigos, que tinham as montanhas como aliadas", disse. Muitos confrontos intensos começaram assim. "Enquanto patrulhávamos as cidades, éramos recebidos a tiros que muitas vezes nem sabíamos de onde vinham", completou.


De lenço no rosto, unidade de Ricardo patrulha montanhas / Arquivo pessoal

Momentos difíceis

"Chegar a um local desconhecido e não ser bem recebido já é um situação complicada, mas tive momentos de imensa tristeza e stress, como quando tive que recolher destroços de dois helicópteros e pedaços de corpos dos meus amigos que foram derrubados por talebans. É uma sensação horrível você recolher pedaços de um companheiro que estava com você em todos os momentos, rindo ou te defendendo ferrenhamente. Foi uma das piores sensações da minha vida", disse, emocionado.  

"Passei por situações complicadas também quando estava fazendo patrulhas. Em uma delas, tomei um tiro no peito de fuzil. A minha sorte é que estava de colete. É praticamente indescritível o que senti. Sei que fiquei com muita raiva, uma ira imensa tomou conta do meu corpo, a adrenalina estava a mil e eu só pensava em matar o homem que apertou o gatilho", disse.

Questionado se o matou a resposta foi: "Sim".


"Só pensava em matar o homem que apertou o gatilho" / Arquivo pessoal

Matar ou morrer

Ricardo contou que a guerra muda as pessoas. Segundo ele, era um adolescente calmo e até então nunca tinha tido experiências tão intensas como nos dias que viveu no Afeganistão.

"A guerra é complicada, você faz coisas que jamais pensou em fazer. Infelizmente eu matei muita gente, não por mal, não gosto da guerra, mas eram eles ou eu", disse.

Ricardo conta, ainda, que com o tempo ia "se acostumando" a ser frio. "Quando matei pela primeira vez me senti mal. Nunca, em nenhum momento da minha vida até então, tinha sequer pensado em atirar em alguém, quanto mais matar. Mas a situação me forçou e eu, pra continuar vivo e voltar para a minha família, usava o mais primitivo dos instintos humanos, o de se defender. Matava para não morrer", completou.

Saudades da família

Outra situação que incomodava Ricardo era a distância da família, pai, mãe e irmã, que tinha deixado em Maringá, interior do Paraná.

"Foi difícil. Passava por dias horríveis, queria ouvir a voz da minha mãe e nem sempre podia, mas pensar nos momentos bons ajudava a nos tranqüilizar", disse.

O contato com os familiares era feito uma vez por semana através de um telefone via satélite. Cada soldado tinha direito a utilizá-lo por uma hora. "Era a melhor hora da semana", brincou.

Missão cumprida

Em setembro de 2005, Ricardo e outros soldados foram substituídos por um outro pelotão e voltaram à Espanha. Ele conta que ficou mais três meses na Europa visitando países como Suíça, Itália e França, onde aproveitou para "festar", como disse, e voltou ao Brasil em dezembro. "Não existe sensação melhor do que estar em casa", desabafou.

Hoje, Ricardo leva uma vida normal em Maringá. Cursa a faculdade de Turismo, mora com a namorada e tem negócio próprio, uma lan-house.

Questionado se tem algum trauma da época em que viveu nos campos de batalha, ele responde: "Trauma? Nenhum".


Mapa do Afeganistão

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