O brasileiro Jefferson da Silva Sobrinho foi condenado nesta terça-feira a três anos de prisão pela Justiça de Hong Kong por ter participação em um esquema de fraude pela internet. O tocantinense de 34 anos era o único proprietário, acionista e diretor de três empresas fantasmas cujas contas chegaram a movimentar mais de US$5 milhões (R$8,6 mi).

As vítimas do golpe online recebiam e-mails com propostas miraculosas de enriquecimento e acabavam sendo convencidas a fazer os depósitos nas contas das empresas na esperança de obter lucros através de acordos obscuros.

No entanto, Sobrinho argumentou na defesa que não sabia que havia assinado documentos que o fariam responsável pelas contas e acreditava que os papéis estavam relacionados com a obtenção de um visto de trabalho. Ele alegou que veio à China com a promessa de trabalhar como garçom.

Sobrinho ficará preso em Hong Kong em regime fechado e não tem a possibilidade de ser extraditado para o Brasil, já que o crime foi cometido no exterior. A sentença é de primeira instância e Sobrinho poderá recorrer.

Golpe
O brasileiro foi preso pela polícia no dia 15 de outubro do ano passado, quando tentava entrar no território de Hong Kong pela terceira vez. Ele já havia viajado à China outras duas vezes, em janeiro e julho de 2007, para assinar documentos relacionados ao caso.

Segundo provas apresentadas no processo, que tramitou na corte distrital de Wan Chai, as três contas no banco Hang Seng pertencentes às empresas de propriedade de Sobrinho, De Lux Trading Ltd., Top Form International Investment e Universe Worldwide Ltd., foram recipientes de depósitos feitos por vítimas de golpes praticados online.

Uma das vitimas do esquema, o australiano Colin Maxwell, acreditou que poderia receber 30% de uma fortuna de US$ 10 milhões de um suposto iraquiano morto contanto que pagasse as taxas de transferência do dinheiro.

Ele foi instruído a depositar cerca de 17,5 mil dólares australianos (US$ 14,4 mil) na conta da Universe Worldwide - uma das companhias de Jefferson.

Maxwell fez a transferência, mas não obteve nenhuma recompensa como combinado e decidiu dar parte na polícia de Hong Kong, desencadeando a investigação que culminou na prisão do brasileiro.

Outra vítima citada no processo é o chinês de Hong Kong Chu Chin Shi. Ele recebeu a proposta de resgatar uma fortuna de US$37 milhões de uma suposta família de prósperos egípcios que morreram em um acidente de avião, sob a condição de arcar com os custos do inventário e transferência dos valores.

Chu convenceu a própria mãe de hipotecar a casa para levantar o equivalente a mais de US$ 1,4 milhão, que depois foram depositados nas contas de uma das empresas de Sobrinho.

Chu não recebeu nenhum dinheiro por sua parte no suposto acordo.

Manipulado
Sobrinho alegou que também foi vítima do esquema. Ele teria sido manipulado pelo libanês Hadi Khalil, que o recrutou para vir a Hong Kong com a proposta de trabalhar como garçom e ganhar muito dinheiro.

O brasileiro só estudou até a sétima série da escola primária e fazia "bicos" como atendente de bar e padeiro em Redenção, interior do Pará, antes de vir à China.

Segundo Sobrinho, Khalil teria afirmado que os documentos em inglês assinados por ele eram apenas papéis necessários aos trâmites para a obtenção de uma permissão de trabalho e visto de residência de Hong Kong.

Ao proferir a sentença, o juiz discordou da versão apresentada pelo brasileiro. O magistrado afirmou que Sobrinho estava ciente de que se tratava de documentos bancários.

Entre as evidências apresentadas há imagens das câmeras de segurança do banco comprovando que o brasileiro foi pessoalmente a uma agência do Hang Seng assinar a transferência dos fundos da Universal Worldwide para uma outra empresa fantasma, a On Target International Com. Ltd, registrada em Taiwan.

Apesar da condenação, o juiz reconheceu que Sobrinho era um "peixe pequeno" e lamentou que infelizmente o "peixe grande", Khalil, escapou.

Brasileiros
De acordo com a policia de Hong Kong, em janeiro de 2007, quando Sobrinho esteve na China pela primeira vez para abrir as contas, ele estava acompanhado de outros cinco brasileiros, que também assinaram documentos sob a supervisão de Khalil.

De acordo com as autoridades, o esquema todo envolve pelo menos 30 contas de brasileiros, que foram abertas a mando de Khalil pela empresa prestadora de serviços secretariais ABS, Asia Business Services, em Hong Kong.

Os outros brasileiros envolvidos, entretanto, não chegaram a ser presos porque não voltaram a tentar ingressar na China. Seus nomes não foram divulgados pela polícia, pois eles ainda estão sob investigação, juntamente com Khalil.

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