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Brasileiro diz que sofria pressão psicológica na Legião Estrangeira

O soldado brasileiro Josafá de Moura da Silva Pereira, acusado de ter assassinado quatro pessoas em Abéché, leste do Chade, no início do mês, afirmou, em entrevista exclusiva e inédita concedida à BBC Brasil no ano passado, que sofria grande pressão psicológica no período em que serviu na Legião Estrangeira do Exército francês. Pereira é acusado de ter matado, no dia 7 de abril, dois legionários, um soldado togolês e um camponês chadiano, no que foi classificado pelo Exército francês como um acesso de loucura.

BBC Brasil |

Ele integrava o 2 regimento estrangeiro de infantaria da Legião, e estava em missão no país africano com a força de intervenção rápida da Eufor, da União Europeia.

O brasileiro foi detido no dia 9 de abril pela polícia militar do Chade, e, na última sexta-feira, foi indiciado e teve sua prisão preventiva decretada pelo Tribunal das Forças Armadas de Paris.

Ele foi entrevistado no ano passado em uma reportagem sobre o aumento do número de brasileiros na Legião Estrangeira Francesa.

Pressão

Na ocasião da entrevista, Pereira, cujo nome de legionário era Paulo da Silva (os recrutas recebem uma nova identidade ao ingressarem no Exército francês) afirmou ter sofrido "humilhações" nos primeiros meses que passou na Legião, mas disse que "o pior já havia passado".

Para ele, o treinamento inicial, de quatro meses, é a fase mais difícil. "O recruta fica isolado em Castelnaudary (cidade onde se localiza o 4 regimento da Legião), é proibido até telefonar", disse.

"O mais difícil é suportar a pressão psicológica, os soldados colocam muita pressão por qualquer erro, se o armário não está bem arrumado, se você ultrapassa o tempo de 1 minuto no banho... Você dorme pouco, acorda cedo, come rápido, é tudo na pressão". Segundo ele, uma das maneiras de pressão era fazer com que todos os outros pagassem pelo atraso de um recruta. "Eles te humilham. Se você chega atrasado, tem 5 minutos para trocar de roupa de esporte para a farda, e, enquanto, isso todo mundo fica fazendo flexão. Se você cantar mal (os hinos do grupo), eles fazem todo mundo correr e repetir os hinos por várias horas, até cantarem perfeitamente". Pereira, que à época da entrevista afirmou ter pensado em desistir (ele posteriormente tentaria desertar), disse, no entanto, que "o pior havia passado".

"Teve épocas em que eu pensava em desistir, tem muito desertor. Mas depois que você se torna rouge (soldado) fica mais fácil, você fica tomando conta dos outros. Eles são bem rígidos, como no Brasil também é assim".

De motoboy a legionáro

Pereira se alistou na Legião Estrangeira francesa em fevereiro de 2007, após ter tentado por duas vezes entrar nas Forças Armadas brasileiras.

"Sempre tive vontade de ser militar, era meu sonho desde pequeno", disse na ocasião.

"Não servi o Exército porque fui dispensado por excesso de contingente em São Paulo. Depois, também tentei fazer teste para a Marinha, mas não consegui passar. Quando fui dispensado conheci a Legião e, como gosto de aventura, sair para missões, viajar, resolvi me alistar, porque a Legião é um lugar em que você viaja muito", afirmou à BBC Brasil.

Criado em Santo André, em São Paulo, ele contou que trabalhou em diversas áreas antes de ir para a França. "Fiz várias coisas na vida. Já fui motoboy, trabalhei na construção civil e fui motorista".

Ele entrou em contato com a Legião através do irmão Jeremias, que também faz parte do Exército francês. O brasileiro afirmou que precisou vender o computador para comprar a passagem de avião, e chegou a Paris sem falar nenhuma palavra de francês. "Fui aprender um pouco com a convivência na Legião", disse.

Rotina

Na ocasião da entrevista, o brasileiro estava no quartel de Nîmes, no sul da França.

Ele contou que sua rotina começava às 5h30 junto com os outros soldados para estarem prontos para a revista, pontualmente às 6h. Depois, os primeiros serviços eram distribuídos - "os mais novos pegam os serviços mais pesados" - como fazer guarda, faxina, cuidar das armas, organizar os escritórios administrativos ou cozinhar para a tropa. "Isso é quando não temos instrução ou treinamento", disse à BBC Brasil. "Passei duas semanas em outro regimento fazendo demonstração de combate urbano". Segundo ele, o trabalho mais pesado era fazer guarda à frente do quartel durante 24 horas. "Não pode ter marca nenhuma na roupa, tem que se vestir bem".

No final do dia, contou, havia algumas horas de esporte: futebol, vôlei ou corrida. Na época da entrevista, ele disse que estava ansioso para ir para Djibuti, na África, de onde tentaria desertar meses mais tarde, na sua primeira infração disciplinar às normas da Legião.

Soldado exemplar

Na opinião de outros legionários brasileiros, Pereira era um bom colega. "Eu tive a chance de conhecê-lo em Nîmes quando estive lá. De baixa estatura, tinha pouco tempo de serviço, mas era querido pelos colegas brasileiros", escreveu um legionário sobre ele.

Já João Rafael Tirabassi, que ingressou em 2007 e está afastado da Legião, diz que o considerava um "soldado exemplar". "Ele era evangélico, orava sempre. Não faltava em serviço, respeitava os superiores, mantinha sempre seu fardamento limpo e bem passado, e não reclamava de nada", disse Tirabassi.

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