Brasileiro desiste de candidatura na Unesco

Sem o apoio do Brasil, o engenheiro brasileiro Márcio Barbosa desistiu de apresentar sua candidatura para o cargo de diretor-geral da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O prazo oficial para a apresentação das candidaturas encerrou à meia-noite de domingo.

BBC Brasil |

No início de maio, o Ministério brasileiro das Relações Exteriores anunciou seu apoio ao polêmico ministro egípcio da Cultura, Farouk Hosny, criticado por declarações consideradas antissemitas.

Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a decisão de apoiar o egípcio se deve "à forte política de aproximação do Brasil com o mundo árabe".

Apesar de o prazo ter terminado, o gabinete de Barbosa - que é diretor-geral adjunto da Unesco - afirmou que isso não quer dizer que o engenheiro não possa se tornar candidato nos próximos meses, já que as eleições ocorrem apenas em outubro, durante a assembleia geral da organização.

"Embora exista um prazo limite, ele é, historicamente, desrespeitado nas eleições da Unesco. Novas candidaturas podem ser apresentadas até a votação", diz Oscar Klingel, chefe de gabinete do diretor adjunto brasileiro.

"Já houve até casos de candidatos apresentados durante as eleições", afirmou Klingel à BBC Brasil.

Mudança de prazo
Segundo Klingel, o comitê executivo da Unesco, formado por 58 dos 193 países que integram a organização, fixa o prazo para que os países apresentem as candidaturas e pode, ao mesmo tempo, decidir não cumprir sua própria determinação.

"Se o comitê executivo não estiver satisfeito com os nomes apresentados, ele pode decidir estender o prazo", diz.

Na prática, se o governo brasileiro reconsiderar sua posição e decidir apoiar Barbosa, o engenheiro não exclui a possibilidade de ainda ser candidato à direção geral da Unesco.

De acordo com Klingel, alguns países "estão fazendo esforços por vias diplomáticas" para sugerir ao Brasil que "veem com bons olhos a candidatura brasileira".

O chefe de gabinete preferiu não mencionar quais seriam esses países, mas confirmou que alguns deles integram o G8, o grupo das economias mais ricas do mundo e a Rússia, país que também apresentou um candidato, seu vice-ministro das Relações Exteriores.

Barbosa chegou a considerar a possibilidade de ter sua candidatura apresentada por outro país até o encerramento do prazo no domingo, na expectativa de que o Brasil pudesse rever depois seu apoio ao ministro egípcio.

Mas ele preferiu não disputar as eleições para diretor-geral da Unesco em nome de outro país e sem o apoio do Brasil.

'Barriga de aluguel'
"A candidatura 'barriga de aluguel' tira a legitimidade do candidato e o expõe a um questionamento sobre sua seriedade. Os outros países se interrogam sobre os motivos de ele não ser apoiado por seu próprio país", afirma Klingel.

Segundo ele, nove candidatos foram apresentados até o encerramento do prazo. Além do egípcio, foram inscritos candidatos de Áustria, Equador, Rússia, Benin, Tanzânia, Lituânia, Bulgária, e ainda um argelino apoiado pelo Camboja.

Klingel afirma que Barbosa se sente "decepcionado e frustrado" pelo fato de não ter sido apoiado pelo Brasil. O atual número 2 da Unesco estava sendo cotado para suceder o japonês Koichiro Matsuura.

"É inusitado um país divulgar seu voto meses antes das eleições. Os países mantém segredo em relação a isso para aumentar, como em qualquer negociação, seu poder de barganha", diz Klingel em relação ao fato do Brasil ter anunciado com tanta antecedência que vai apoiar o egípcio.

"Talvez faça parte da negociação com os países árabes que o Brasil torne público seu apoio", afirma Klingel, que se pergunta "o que estaria por trás" desse apoio do Brasil ao candidato egípcio.

Os países árabes e africanos representam 20 votos (pouco mais de um terço) no comitê executivo da Unesco, que elegerá o novo diretor-geral.

A inscrição de outros candidatos africanos podem diminuir as chances do candidato egípcio nas eleições.

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