O brasileiro Ramon de Paula, o chefe da missão da sonda espacial Phoenix, prevista para chegar a Marte neste domingo, relata que a aterrissagem da nave é vista por ele e seus colegas com preocupação, mas que os benefícios de um pouso bem-sucedido superam os riscos. Menos da metade das missões a Marte foram bem-sucedidas.

É uma missão de bastante risco. Estamos preocupados, mas os benefícios científicos são grandes. Vamos correr o risco e ver o que acontece'', disse, em entrevista à BBC Brasil, em uma das sedes da Nasa, em Washington.

A missão, segundo de Paula, espera, entre outras coisas, se certificar de que Marte conta com água em seu subsolo. Daí a escolha do Pólo Norte do planeta para ser o local do pouso.

''O principal propósito dessa missão é ver se existe água no subsolo dessa região no norte de Marte. É possível que, havendo gelo, este contenha materiais orgânicos e que estes materiais possam provir de alguma espécie de vida que tenha existido anteriormente.''
De Paula procura atenuar os insistentes relatos de que a missão estaria primordialmente buscando traços de alguma forma de vida em Marte.

''É possível que tenha havido alguma forma de vida em Marte, mas não sabemos e ainda não temos como determinar isso. O modo de estimar isso é encontrarmos moléculas orgânicas, o que pode ser um tipo de informação, mas não necessariamente o suficiente.''
''A água é o primeiro elemento que dá apoio à vida. Primeiro, queremos determinar se existe água. A Phoenix não está procurando vida, isso seria uma outra etapa''.

Tensão
Os minutos que marcarem a descida da sonda a Marte serão os mais tensos, segundo o relato do chefe da missão.

''O primeiro desafio é a grande variação que existe na atmosfera de Marte. O pára-quedas precisa abrir numa certa hora, e ele precisa contar com uma determinada pressão atmosférica para conseguir reduzir a velocidade da nave.''
''O outro desafio é que não conhecemos tão bem o solo onde iremos pousar. Estamos usando fotos da (nave) Mars Reconnaissance Orbiter para determinar o número de pedras existenes no solo e se essas pedras podem prejudicar a nave'', relatou.

Para realizar um pouso suave, a nave faz uso de retrofoguetes, que, espera-se serão capazes de desacelerar a nave de mais de 20 mil quilômetros por hora para 5 quilômetros por hora.

Experiência passada
Os cientistas da Nasa vêm trabalhando no atual projeto da missão marciana desde 2003. Segundo de Paula, os peritos da agência espacial americana aprenderam com os erros do passado.

Em 1976, as sondas Viking não conseguiram detectar qualquer possível traço de que Marte já foi capaz de abrigar formas de vida, mas De Paula conta que isso se deu, em parte, pelo local do planeta em que as sondas pousaram.

''O lugar em que a Viking pousou não era muito propício para ter ou ter tido vida. Nós sabemos que para ter vida, é preciso ter água. Nos pólos, existe gelo, e o gelo pode abrigar as moléculas que estamos procurando.''
Pouso
A Nasa só saberá com certeza se a aterrissagem da Phoenix foi bem-sucedida cerca de 15 minutos depois do pouso, quando todo o material dispersado na atmosfera pelos retrofoguetes da nave assentar no chão.

Em seguida, são abertos os painéis solares da nave e é erguida a primeira câmera da Phoenix, que irá tirar fotos dos painéis - para que haja certeza de que eles foram abertos de foram apropriada - e dos três pés da nave, para que os cientistas da agência espacial saibam com precisão onde ela está localizada.

A exploração do planeta só se dará, propriamente, após o quinto dia de permanência da sonda espacial no planeta vermelho.

Nessa fase, o ''braço'' da Phoenix que atua como uma escavadeira, passará a coletar amostras do solo marciano e, dentro de mais 35 dias, será possível ter uma análise mais pormenorizada do material recolhido.

DVD para os não-terráqueos
Em sua ''bagagem'', a sonda espacial conta com um DVD contendo imagens e gravações que vão desde uma saudação do astrônomo Carl Sagan até o lendário programa de rádio apresentado por Orson Welles relatando uma invasão fictícia de marcianos à Terra.

De Paula sorri diante da possibilidade de que o ''souvenir'' seria a prova cabal de que cientistas supostamente céticos estariam confiantes de que podem encontrar formas de vida interplanetária.

''É lógico que sempre se quer mandar as nossas informações para outros lugares. A idéia que se alguém, em algum lugar, em algum planeta, encontrasse essa nave, ele receberia uma mensagem daqui da Terra.''
''Mas é mais uma coisa simbólica. Pode ser que, se alguém encontrar esse DVD, ele tenha uma tecnologia tão superior à nossa, que nem consiga lê-lo. Hoje em dia já está até difícil achar equipamento para ler os nossos discos antigos.''

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