Brasileiro coordena campos com 110 mil refugiados no Sri Lanka

Um brasileiro está no comando do atendimento aos milhares de refugiados deslocados de suas casas por causa do conflito entre o governo e rebeldes tâmeis no Sri Lanka. O carioca Gerson Brandão, que chefia o Escritório de Coordenação da Ajuda Humanitária no Norte do Sri Lanka, é responsável por todos os campos de refugiados do país.

BBC Brasil |

"Até agora temos 17 campos e mais dois sendo preparados que devem estar ocupados antes de sexta", disse ele à BBC Brasil.

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O brasileiro Gerson Brandão, ao centro
Apenas na segunda-feira, cerca de 35 mil pessoas fugiram da última região controlada pelo grupo rebelde Tigres Tâmeis, segundo o Exército do país.

Segundo Brandão, desde novembro de 2008, quando o Exército iniciou uma ofensiva para tentar esmagar o grupo, 110 mil refugiados fugiram da região.

"Do lado dos rebeldes, ainda há cerca de 100 mil pessoas. Não sabemos ao certo o número porque muita gente fugiu de barco para países como Índia ou Malásia", disse ele.

O Exército cingalês intensificou sua ofensiva contra os rebeldes nas últimas semanas. Segundo um correspondente da BBC, a vida para os civis na minúscula faixa de terra - com tamanho inferior a 20 km - é um "pesadelo".

O território vem sendo bombardeado há meses e, segundo a ONU, os Tigres Tâmeis estão impedindo a população de deixar a área. Os rebeldes negam as acusações.

Segundo Brandão o conflito já resultou em mais de quatro mil mortes de inocentes só nos últimos três meses.

Comida

Brandão fica baseado em Vanni, a cerca de 60 km da faixa que divide as duas áreas, considerada o lugar mais perigoso para os civis em fuga, segundo ele. "Essas pessoas estão exatamente na linha de frente quando tentam atravessar", diz.

"Quando essas pessoas chegam da zona de conflito, elas chegam sem absolutamente nada. Elas perderam literalmente tudo, a casa que tinham, a moto, o carro. Ao atravessarem, a sensação delas é apenas de alívio."

Brandão é quem coordena a distribuição de comida, roupas e água para essas pessoas, além de buscar apoio em hospitais e de procurar por novos campos de refugiados caso necessário, como em igrejas, escolas e outros prédios públicos até que os novos campos sejam construídos.

"Essas são pessoas que durante 25 anos viveram nessa situação de guerra, com alguns intervalos de seis meses apenas. Então, hoje em dia passar para o lado do governo é um sentimento de alívio, apesar de terem perdido tudo", disse Brandão, que citou a conversa tida com um refugiado recém-chegado que disse: "Ontem vivi a melhor noite dos últimos dois anos, porque sabia que não tinha bomba pra cair na minha cabeça".

O brasileiro ainda citou uma família recém-chegada, que nos últimos cinco meses mudou de casa ou de vilarejo 17 vezes. "Isso acontece porque chegavam num lugar e a linha de frente se aproximava, então eles mudavam de novo, seja para a casa de um primo, um templo, onde achavam abrigo".

Brandão trabalha em conjunto com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e outras ONGs no Sri Lanka.

Ele chegou ao país em dezembro de 2006 para trabalhar por dois anos ajudando na recuperação após o tsunami do ano anterior. No entanto, acabou indo para o norte trabalhar com os refugiados.

Antes de ocupar a posição no Sri Lanka, ele já havia trabalhado no Congo e na região de Darfur, no Sudão.

Para Pedro Henrique Lopes Borio, embaixador do Brasil em Colombo, capital do Sri Lanka, apesar da guerra e do seu "alto custo humano" o país tem grande potencial.

"O país tem um nível de educação muito alto, e tem condições muito boas de retomar o rumo do seu futuro", disse Borio.

"A economia do Sri Lanka continua crescendo, às vezes até a 8% ou 9% ao ano, diferentemente de outros países que têm crescido menos da metade disso".

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