Um relatório divulgado nesta terça-feira por uma organização não-governamental na Espanha diz que 77% das mulheres forçadas a se prostituir no país são brasileiras. O estudo chamado Luta contra o Tráfico de Mulheres, feito pela Federação de Mulheres Progressistas da Espanha, estima ainda que 72,5% das mulheres que entram nesse mercado sejam aliciadas pela própria família.

São casos de familiares que indicam mulheres para os operadores dos esquemas de exploração ou atuam como os próprios exploradores.

O relatório revela ainda que, embora a maioria diga que chega à Europa enganada com falsas ofertas de trabalho, 83% já haviam exercido a prostituição nos seus países de origem.

Oficialmente, a cada ano cerca de 20 mil mulheres são vítimas de quadrilhas de prostituição na Espanha. Mas para as ONGs do país este número não representa nem a metade do total.

Do total de prostitutas, 58,59% são estrangeiras.

Redes de tráfico
O estudo é baseado em dados oficiais da polícia, principalmente das investigações de redes de tráfico de seres humanos.

Além de traçar o perfil da mulher prostituída, o trabalho detalha o esquema das quadrilhas de cobrar dinheiro das mulheres, em forma de exploração sexual, por oferecer passagem, passaporte, hospedagem e alimentação na Espanha.

Essas dívidas são anunciadas na chegada ao país. Já no desembarque as mulheres ficam sabendo que têm uma dívida pelo investimento da viagem e que a quantia deve ser paga através da prostituição.

As cifras variam entre 5 mil e 8 mil euros por cada mulher, dependendo da rede de tráfico. Em média elas demoram entre um e dois anos para pagar.

Segundo as investigações, as quadrilhas normalmente liberam as mulheres depois que elas saldam suas dívidas. Mas a maioria continua no mercado.

"É um ciclo difícil de sair", disse a presidente da ONG Yolanda Bestero.

Segundo Bestero, a dívida é paga, mas "muitas continuam com a obrigação de mandar dinheiro às suas famílias e seguem em situação ilegal, o que as impede de sair da prostituição, apesar de estarem livres".

Drogas e falta de informação
A ONG entregou uma cópia do relatório ao governo e reivindicou mais atenção social às vítimas de prostituição, começando por proteção judicial.

"A maioria (das vítimas) nunca denuncia por medo", afirma Bestero.

Segundo a presidente da ONG, as mulheres não denunciam por estarem em situação ilegal, por serem viciadas em drogas, ou por mera falta de informação, entre outros fatores.

De acordo com o informe, 56,3% das mulheres nem terminaram seus estudos primários.

O governo espanhol já tem um projeto de lei para tentar regulamentar o setor. Chamado de Plano Integral contra o Tráfico de Seres Humanos com fins de Exploração Sexual, o projeto prevê a criação de uma polícia especializada para combater as quadrilhas, com um orçamento de 20 milhões de euros por ano.

O projeto prevê medidas como a fiscalização dos aeroportos aonde chegam as mulheres vítimas dos esquemas além de campanhas de conscientização do problema.

Só em 2007, segundo o Ministério do Interior, a polícia desarticulou 117 quadrilhas ligadas à prostituição e prendeu mais de 500 suspeitos.

A Espanha está entre os dez principais destinos de redes de prostituição mundial, de acordo com a Organização das Nações Unidas.

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