Brasileira diz que será deportada "em alguns dias"

Iara Lee, que estava na frota atacada por Israel, enviou mensagem nesta terça-feira por meio da Embaixada dos EUA no país

iG São Paulo |

A cineasta brasileira Iara Lee, que estava em uma das embarcações que integravam a frota de ajuda humanitária a Gaza atacada pelo Exército israelense na segunda-feira, enviou uma mensagem nesta terça-feira por meio da Embaixada dos Estados Unidos em Israel.

A mensagem, postada no Facebook por integrantes da organização da qual ela faz parte, a Cultures of Resistence, diz: "Estou segura, bem e não fui ferida. Estou em uma prisão em Beer el-Saba, Israel. Se tudo correr bem, serei deportada em alguns dias".

Nesta terça-feira, Iara Lee recebeu uma visita de um funcionário da Embaixada do Brasil em Israel. Segundo informações da embaixada, Iara Lee confirmou dispor de alimentos e roupas adequadas na prisão.

Por meio do telefone celular do funcionário da embaixada, Iara Lee entrou em contato com membros de sua família e deixou recado para a irmã, residente em Nova York. A cineasta afirmou que as autoridades israelenses não permitiram que ela entrasse em contato com a embaixada brasileira e reclamou que suas bagagens e passaportes (brasileiro e americano) continuam retidos por Israel. De acordo com a embaixada, a brasileira estava na lista de passageiros da frota como cidadã americana. Ela vive em Nova York há 20 anos.

Iara Lee explicou ao funcionário da Embaixada do Brasil que as autoridades israelenses exigiram, como condição para a sua libertação, que ela assinasse termo declarando ter entrado ilegalmente em Israel. Iara Lee informou que não pretende assinar o documento, uma vez que foi presa pelas forças israelenses em águas internacionais.

De acordo com a diplomacia brasileira, o governo do País segue em contato permanente com as autoridades israelenses, instando-as a que libertem pronta e incondicionalmente a brasileira, como também exigiu o Conselho de Segurança da ONU após reunião na última segunda-feira.

Deportação

Na última segunda-feira, o porta-voz da Embaixada de Israel em Brasília, Raphael Singer, afirmou que Iara Lee será deportada. Ainda não há data definida para a deportação.

Segundo Singer, a cineasta estava no "Mavi Marmara", o barco-almirante turco do comboio de seis navios que planejavam entregar suprimentos à Faixa de Gaza, território palestino que está sob bloqueio de Israel desde 2007. Após o ataque, que deixou nove mortos, a embarcação com 581 pessoas foi levada ao porto da cidade israelense de Ashdod.

Aos ativistas da embarcação, Israel deu duas opções: retornar a seus países de origem voluntariamente ou ser deportados. Como Iara rejeitou a primeira opção, será deportada. Singer não esclareceu, porém, exatamente quando isso vai ocorrer, apenas dizendo que "isso vai acontecer de forma muito rápida". "Não é do interesse de Israel, que eles (os ativistas) fiquem lá", acrescentou.

O governo brasileiro demonstrou nesta segunda-feira "choque e consternação" com o ataque de Israel ao um comboio de navios e chamou o embaixador israelense no Brasil para manifestar "indignação" com o incidente. "Não há justificativa para intervenção militar em comboio pacífico, de caráter estritamente humanitário", disse a chancelaria em nota.

Israel impõe há anos um bloqueio comercial que limita o acesso de alimentos, remédios e produtos ao território palestino e impede a circulação de pessoas. A condenação brasileira seguiu a reação mundial negativa à ação israelense contra a frota de navios que levava ajuda humanitária a Gaza e que matou ao menos nove ativistas.

Cineasta e ativista

Nascida no Brasil e descendente de coreanos, Iara estudou Cinema e Filosofia na Universidade de Nova York. No anos 1980, foi curadora da da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ao lado do então marido, Leon Cakoff.

A última edição da Mostra, de 2009, exibiu um dos filmes de Iara Lee, "Batalha pelo Xingú". Seu primeiro longa-metragem, "Prazeres Sintéticos", foi exibido no festival de 2005. Antes disso, a cineasta já havia dirigido os curta-metragens "Prufrock" (1991) "Neighbors" (1992) e "An Autumn Wind" (1993).

Desde 1986 Iara Lee é casada com o americano George Gun, com quem criou a Fundação Caipirinha, organização que tem a missão de "conduzir e apoiar atividades educacionais relacionadas a Direitos Humanos, Direito internacional, política externa americana, imprensa independente, arte e cultura".

A fundação é ligada à rede de ativismo social Cultures of Resistance (culturas de resistência, em tradução livre), para a qual Iara Lee dirigiu um filme do mesmo nome, lançado em 2010. A brasileira passou dois anos viajando por 25 países, como Mianmar, Líbano, Irã e Brasil, para retratar histórias de artistas que “usam a arte e a criatividade como munição na batalha por paz e justiça”.

Com reportagem de Luísa Pécora

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