Brasileira cria 1º abrigo para meninas vítimas de abuso no Timor Leste

Uma missionária evangélica brasileira criou o primeiro e único abrigo para meninas que sofrem abuso sexual em Timor Leste, um problema cultural no país. Em março deste ano a psicanalista Simone Barbosa Assis abriu a Casa Vida, primeiro projeto para trabalhar especificamente com meninas do Timor Leste vítimas de abuso familiar. A casa conta hoje com 16 meninas.

BBC Brasil |

Simone largou a vida confortável no Brasil em 2000, logo após Timor Leste ter se tornado independente, e foi com a família para a capital, Dili, ajudar na recuperação do país.

Após ter trabalhado na área de educação escolar e em campos de refugiados, formados em decorrência da crise político-militar de 2006 que deixou cerca de 30 mil pessoas sem teto, a brasileira percebeu que meninas estavam sofrendo abuso devido ao próprio conflito e à situação de moradia, e que elas não tinham lugar para pedir socorro.

"Vi que a grande necessidade da época não era mais escolas, mas um lugar pra elas correrem se precisarem, para serem acolhidas e recuperadas", disse ela à BBC Brasil.

Especialização


Antes de abrir o centro de cuidado a crianças, Simone voltou ao Brasil em 2007 para fazer um estágio e se especializar na área.

"Diferentemente do Brasil, onde sempre há alguém da família para acolher a criança vítima de abuso, no Timor, quando a menina sofre abuso, de acordo com a cultura ela é automaticamente excluída da família e vista como prostituta".

O sistema de casamento do Timor Leste também favorece a situação. O "barlaque" (sistema de dote), quando o noivo tem que pagar um dote ao pai da noiva, torna a mulher posse do marido. Conseqüentemente tudo passa a ser direito do homem, inclusive as filhas.

"Como isso, o serviço pesado é sempre da mãe, e a filha acaba sozinha em casa com tios e o pai", disse Simone.

"Tudo isso é um agravante. E quando o abuso acontece com a menina, a família se volta contra ela e ela fica sozinha, pois se torna, além de vítima, culpada".

Tráfico de pessoas


A Casa Vida também recebe casos de meninas vendidas para o tráfico de pessoas dentro e fora país. "Sabemos de casos de meninas que foram enviadas pelos pais pra estudar, mas na verdade estão sendo usadas como escravas sexuais".

Simone aprendeu a falar tetúm (a segunda língua do país, ao lado do português oficial) para se comunicar com as meninas que moram no abrigo. A maioria delas tem em torno de 15 anos e está grávida.

No centro, as meninas aprendem a costurar, bordar, cozinhar, têm aulas de computação. Antes de chegar aos cuidados de Simone, muitas delas não haviam sequer freqüentado a escola.

"Essas meninas vêm de um mundo onde a vida delas é apenas plantar hortaliças e café. Aqui elas descobrem uma nova vida. Muitas das meninas que continuam nas aldeias querem que algo ruim aconteça com elas para elas poderem vir pra cá. Essa é uma realidade que precisa ser mudada a longo prazo."

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