Uma fonte brasileira diz esperar que o país vizinho determine necessidades adicionais de financiamento para uma rota alternativa

O Brasil quer destravar a construção na Bolívia de uma estrada de US$ 420 milhões suspensa após protestos indígenas e espera que seu vizinho determine as necessidades adicionais de financiamento para uma rota alternativa, afirmou nesta quinta-feira uma fonte oficial.

O presidente Evo Morales, acompanhado pelo presidente da Câmara de Deputados da Bolívia, Héctor Arce, promulga a lei (24/10)
EFE
O presidente Evo Morales, acompanhado pelo presidente da Câmara de Deputados da Bolívia, Héctor Arce, promulga a lei (24/10)

As obras da rodovia que abriria uma saída ao oceano Pacífico para as exportações brasileiras foram interrompidas pelo presidente Evo Morales, cuja popularidade foi corroída por protestos indígenas contra a construção da estrada, que atravessaria a reserva Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis) no centro do país.

O projeto da empresa brasileira OAS poderia ser retomado se Morales e os líderes indígenas chegarem a um acordo sobre uma rota alternativa. "Nosso interesse é que a rodovia seja feita, mas a decisão final é do governo boliviano... A bola ainda está no campo deles", disse à Reuters uma fonte do Ministério das Relações Exteriores brasileiro.

"O governo boliviano tem que fazer um novo cálculo do traçado, discuti-lo com a empresa. E o financiamento é algo posterior", acrescentou.

O jornal Valor Econômico afirmou na edição desta quinta-feira que antes de pagar outro adicional de US$ 250 milhões, o Brasil exigiria garantias de que as obras não voltarão a ser bloqueadas. "A Bolívia precisa estabelecer um cronograma, uma linha de ação, para definir com rigor técnico a solução para os parâmetros ambientais, financeiros, econômicos e políticos desse processo", afirmou o jornal citando uma fonte oficial brasileira.

Cerca de 80 % do custo da estrada são cobertos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma importante fonte de financiamento de obras de construtoras brasileiras na América Latina.

De acordo com o Valor, o Brasil também quer que a Bolívia ofereça garantias sobre a propriedade de terra a produtores brasileiros de soja que plantam em cerca de 150 mil hectares no departamento boliviano de Santa Cruz. O governo brasileiro também espera que a Bolívia devolva cerca de 4 mil carros roubados e contrabandeados através da fronteira. "Isso ajudaria a criar uma agenda positiva entre os dois países", disse a fonte do Valor.

Nesta segunda-feira, Evo promulgou uma lei sancionada pelo Congresso que veta a construção de uma estrada no Tipnis, que foi declarada zona intangível. A assinatura de Evo no documento coloca o ponto final em um conflito que durava dois meses.

Manifestantes amazônicos e seus líderes caminharam 603 km em 65 dias até La Paz para protestar contra a construção da estrada. De acordo com o publicado pelo jornal boliviano La Razón na terça-feira, o diretor nacional da Administradora Boliviana de Rodovias (ABC, sigla em espanhol), José Kin, abriu a possibilidade de que o Trecho II da estrada Vlla Tunari-San Ignacio de Moxos - trecho esse que passaria pelo Tipnis de acordo com o projeto -, seja excluído do contrato de construção com a OAS.

"Há a possibilidade de tirarmos (o trecho II) do contrato com a OAS, e podemos fazer um novo contrato, uma nova licitação, buscando um novo financiamento. Ambas as possibilidades estão presentes", disse. A brasileira OAS está encarregada de contruir os três trechos da rodovia. O veto ao trecho II implicará na busca de rotas alternativas que fazem fronteira com o Tipnis.

Crise

A marcha provocou uma das maiores crises no governo de Evo Morales, primeiro indígena a governar o país andino. Em setembro, uma intervenção policial violenta contra os manifestantes chamou a atenção da comunidade internacional negativamente à atitude do governo. Por conta disso, Morales enfrentou duas renúncias no corpo do Executivo: a ministra da Defesa deixou o governo em protesto, enquanto o ministro do Interior por suposta negligência.

Diante desse cenário, Morales se viu obrigado a realizar uma suspensão temporária da obra no mês passado, enquanto os índios se reorganizavam para prosseguir com a marcha até a capital do país.

Na semana passada, eles foram recebidos com festa no centro da capital , uma vez que a causa indígena ganhou muitos adeptos no país, em diversos departamentos, que, inclusive, realizaram uma greve para pressionar Morales.

Nesse período, ele sofreu também seu primeiro revés eleitoral na votação dos magistrados, na qual o voto nulo dominou.

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