Brasil rejeita discutir novas sanções contra Irã

Declaração é feita após EUA anunciarem acordo com grandes potências, incluindo Rússia e China, para nova punição contra país persa

iG São Paulo |

O Brasil rejeitou nesta terça-feira discutir o esboço de resolução para novas sanções contra o Irã apresentado pelos EUA ao Conselho de Segurança da ONU, onde desde o início do ano detém 1 das 10 cadeiras rotativas no órgão de 15 membros. O anúncio foi feito um dia depois de o País, juntamente com a Turquia, ter anunciado um acordo pelo qual o Irã se comprometeu a enviar praticamente metade de seu combustível atômico à Turquia , em uma tentativa de atenuar as preocupações sobre seu controvertido programa nuclear.

"O Brasil não se engajará em qualquer discussão sobre o esboço de resolução porque temos certeza de que há uma nova situação", disse Maria Luiza Ribeiro Viotti, embaixadora do Brasil na Organização das Nações Unidas. "O acordo alcançado ontem não tem o objetivo de responder a todas as questões (sobre o programa nuclear iraniano), mas é muito importante. Deveríamos aproveitar essa oportunidade para negociar", disse.

As declarações da embaixadora foram feitas depois de o governo do presidente dos EUA, Barack Obama, ter anunciado que alcançou um acordo com outras potências mundiais, incluindo a Rússia e a China, para impor uma nova rodada de sanções contra o governo iraniano . O anúncio pareceu ser um claro repúdio ao acordo alcançado na véspera pelo Brasil e Turquia com o Irã.

Autoridades americanas, europeias e russas reagiram com grande ceticismo à proposta, ressaltando que ela ainda deixaria o Irã com suficiente urânio pobremente enriquecido para obter combustível para uma bomba nuclear se o país quisesse.

Sanções

"Alcançamos um acordo para um esboço de resolução com a cooperação da Rússia e da China", disse a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, perante uma comissão do Senado dos EUA. Segundo ela, o acordo foi alcançado entre todos os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, França e Alemanha) e a Alemanha.

Na mesma audiência, Hillary afirmou que o Irã só aceitou o acordo anunciado na segunda-feira para tentar desviar a pressão das potências mundiais que tentam aprovar as novas sanções. "Não acreditamos que tenha sido um acidente o Irã concordar com esse acordo enquanto nós avançamos em Nova York para apresentar o texto da resolução", disse Hillary.

Mais tarde, a embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, apresentou a resolução ao Conselho de Segurança da ONU, o primeiro passo no que devem ser semanas de debate. Ainda não está claro quando a resolução, que precisa de 9 dos 15 votos do Conselho de Segurança da ONU para ser aprovada, será votada.

AFP
Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, no Senado ao lado de secretário de Defesa Robert Gates (dir.) e do presidente do Estado-Maior Conjunto Michael Mullen
Pelo esboço de resolução, as sanções terão como alvo as instituições financeiras do Irã , incluindo as que apoiam a Guarda Revolucionária Islâmica, que é responsável por fiscalizar os aspectos militares do programa nuclear iraniano e, em anos recentes, também se tornou a força política e econômica mais importante do país. Muitos iranianos desprezam a corporação por seu papel brutal na repressão dos protestos nas contestadas eleições presidenciais do ano passado.

A Rússia e a China, que vinham sendo os países mais resistentes aos esforços liderados pelos EUA para impor uma nova punição ao país persa, bloquearam quaisquer sanções que impediriam o fluxo de petróleo dos portos iranianos ou de gasolina para o país.

Pelo elemento mais novo da proposta, os países teriam de inspecionar navios e aviões que entrem ou saiam do país se houver suspeitas de que carregam materiais proibidos. Mas, assim como no caso da Coreia do Norte, não há autorização para embarcar nesses navios à força em alto-mar, medida que muitas autoridades advertiram que poderiam desatar um tiroteio e, talvez, um conflito mais longo. Se aprovada, a resolução será a quarta rodada de sanções com o objetivo de induzir o Irã a desistir de quaisquer ambições de construir a bomba.

Mas, mesmo que as sanções sejam aprovadas, não está claro se causarão suficiente dano para forçar o país a cooperar. As três rodadas prévias fracassam em seu principal objetivo: forçar o Irã a suspender o enriquecimento de urânio e cumprir com todas as reivindicações da Agência Internacional de Energia Atômica para permitir a inspeção de todas as instalações suspeitas, entregar documentos relacionados à pesquisa de armas e permitir entrevistas com cientistas iranianos.

O Irã diz que seu programa de desenvolvimento nuclear tem o objetivo de produzir energia para uso civil, mas autoridades americanas e europeias revelaram atividades que não parecem relacionadas à simples produção de eletricidade, afirmando que Teerã não cumpriu com obrigações do Tratado de Não-Proliferação Nuclear para permitir inspeções a todas suas instalações nucleares.

*Com Reuters, New York Times e BBC Brasil

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