Brasil registra primeiro remédio contra a malária desenvolvido no país

Carlos A. Moreno Rio de Janeiro, 20 abr (EFE).

EFE |

- O Brasil registrou o primeiro remédio desenvolvido no país contra a malária, apresentado como mais barato e eficiente do que os utilizados até agora contra a doença em todo o mundo.

O remédio ASMQ, lançado na quinta-feira e apresentado como mais barato e eficiente do que qualquer outro contra a malária, foi o primeiro desenvolvido e registrado no Brasil contra uma doença negligenciada, já que não apresenta atrativos econômicos para a fabricação de medicamentos.

Mas esse atraso não se dá porque o Brasil também se esqueceu das doenças negligenciadas, garante o diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Carlos Morel.

"O problema é que o Brasil sempre foi muito bom em produzir relatórios e artigos científicos, mas ficou atrás na inovação tecnológica", disse à Agência Efe o representante da Fiocruz, considerada o principal centro de pesquisas em saúde da América Latina.

"No Brasil não falta pesquisa, mas sim transformar esse conhecimento em produtos, vacinas e remédios. Por mais que contemos com uma pesquisa científica avançada, isso não significa que temos mais produtos no mercado", afirma Morel, ex-diretor do Programa de Doenças Tropicais da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os números impressionam. A Fiocruz produz anualmente cerca de mil artigos científicos, principalmente sobre as doenças negligenciadas que mais atingem o país, como malária, Doença de Chagas e leishmaniose, e é considerada a instituição que mais conhece esses males no mundo.

Entre 2003 e 2007, o Ministério da Saúde financiou 381 pesquisas em doenças como dengue, malária, leishmaniose, Doença de Chagas, tuberculose e hanseníase.

O Brasil registra cerca de 500 mil novos casos de malária por ano e 74 mil de tuberculose, além de ser um dos cinco países com maior número de casos de leishmaniose no mundo.

O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), a unidade de produção de medicamentos da Fiocruz e que fabricará o ASMQ para os países latino-americanos, é responsável por produzir 66 diferentes remédios.

O laboratório estatal produz cerca de 2 bilhões de remédios por ano para o tratamento de doenças freqüentes como malária, hanseníase tuberculose, assim como vários dos medicamentos que compõem o coquetel contra a aids distribuído gratuitamente pelo Governo aos portadores do vírus.

"A grande maioria dos remédios produzidos em Farmanguinhos foi desenvolvida por outras instituições", reconhece Morel.

O diretor admite que, apesar da capacidade brasileira de pesquisa e de produção de remédios, os recursos para o desenvolvimento destes ainda são poucos, principalmente por serem doenças que não interessam aos países ricos.

Devido a essa falta de interesse, apenas 1,3% dos 1.556 novos remédios registrados entre 1975 e 2004 em todo o mundo foram desenvolvidos para combater doenças tropicais (18 medicamentos) ou tuberculose (três medicamentos).

De acordo com Morel, o desenvolvimento do ASMQ só foi possível graças à parceria com a iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, em inglês), uma associação impulsionada pela organização Médicos Sem Fronteiras e da qual fazem parte organismos multilaterais e centros de estudos como a Fiocruz.

O desenvolvimento do remédio contra a malária teve um custo de 7,8 milhões de euros, arrecadados pela DNDi por meio de acordos de cooperação assinados com a União Européia (UE) e com os Governos de França, Espanha, Holanda e Reino Unido.

"A associação com o DNDi foi exatamente o que nos permitiu sair da pesquisa básica e desenvolver um novo produto, testá-lo clinicamente, produzi-lo e poder vendê-lo aos países que precisam dele a um preço bastante reduzido (US$ 2,5 por tratamento completo para adultos)", segundo Morel.

Após lançar o remédio contra a malária, a Fiocruz já assinou acordos com a DNDi para desenvolver medicamentos contra a doença do sono (tripanossomíase humana africana), a leishmaniose e a Doença de Chagas.

"Os projetos estão em fase de pesquisa, e o financiamento dependia da conclusão do projeto da malária", afirmou Morel, um dos membros fundadores da DNDi. EFE cm/ev/an

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