Brasil negou avião para Zelaya voltar a Honduras, diz Amorim

BRASÍLIA - O ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que, há cerca de três meses, negou o empréstimo de um avião brasileiro para que o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, voltasse para o país. Segundo o chanceler, o pedido foi feito pelo próprio Zelaya, por telefone, quando ele estava em El Salvador.

Camila Campanerut, repórter em Brasília |


Reuters
Amorim faz uma pausa durante fala no Senado
Amorim faz uma pausa
durante fala no Senado
Vou contar aqui um fato que não foi tornado público. Foi pedido um avião brasileiro para que o presidente Zelaya voltasse e nós negamos, confidenciou.

O pedido de Zelaya ocorreu logo depois do golpe (em 28 de junho), após o Brasil ter oferecido um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, para realizar ações de diálogo com o governo de fato de Roberto Michelleti.

Amorim fez a declaração durante uma sessão extraordinária da Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado, na qual prestou esclarecimentos sobre o posicionamento brasileiro na crise hondurenha. Desde 20 de setembro, Zelaya está abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa.

O chanceler afirmou que a ação do governo brasileiro contribui para o diálogo. "Ele (Zelaya) teria sido preso, talvez morto (sem o apoio do Brasil)", disse, citando ainda a possibilidade de o conflito culminar em uma guerra civil. "A solução real virá pelo diálogo e pelo restabelecimento da democracia."

O ministro ponderou que o Brasil está apoiando uma vítima de um golpe de Estado. Não foi apenas uma pessoa que estava procurando refúgio. Foi um presidente legítimo que procurava o apoio da embaixada, justificou.

O chanceler aponta que a proteção de Zelaya foi referendada por outras entidades internacionais, como a Organizações dos Estados Americanos (OEA) e Organização das Nações Unidas (ONU). Não fomos protagônicos, fomos fazendo o que achávamos o que tinha de fazer. O Brasil não comandou nenhum processo, disse.

Amorim reiterou que o governo brasileiro ficou sabendo da entrada de Zelaya em Honduras apenas cerca de meia hora antes de sua chegada ao local. Falei com ele (Zelaya), que nos disse que estaria indo (a Honduras) para tratar do retorno dele à presidência, por meios pacíficos e diálogo, contou o chanceler.

Aspecto 'emocional'

Amorim afirmou, ainda, que o Itamaraty pediu a Zelaya que ajude a diminuir o número de hóspedes que estão na embaixada brasileira. "Exortamos o presidente Zelaya e sua esposa para que esse número seja reduzido", disse Amorim, acrescentando que "houve um certo estacionamento" no número de visitantes em cerca de 60 pessoas.

Amorim lembrou que a casa chegou a ter 300 pessoas e que o grupo vem se reduzindo aos poucos. "Me garantiram que o número será reduzido ainda mais", disse o ministro.

O chanceler brasileiro disse ainda que esse trabalho "não é simples" e que é preciso compreender o aspecto "emocional" que envolveu a entrada dessas pessoas na representação brasileira.

Exageros

As autoridades brasileiras temem pela segurança das pessoas que estão na representação diplomática e também querem evitar que a embaixada possa ser usada por eles como base para um movimento político. De acordo com Amorim, o grupo é composto por jornalistas, parentes e correligionários do presidente deposto.

Os senadores questionaram o fato de o presidente deposto estar usando a embaixada brasileira para incitar movimentos a seu favor, o que seria proibido. Amorim voltou a ressaltar o pedido, feito a Zelaya, de que o presidente deposto "evite exageros".

"Pedi a ele, inclusive, que não usasse mais a expressão 'pátria, restituição ou morte'. Morte é tudo que não queremos. Ele acatou", disse o ministro. "Temos buscado conter o presidente Zelaya, no sentido de prevenir exageros", acrescentou.

Status

Apesar de questionado pelos senadores, Amorim não quis comentar o status do presidente Zelaya. No domingo, o governo interino de Honduras deu um prazo de dez dias para que o Brasil defina qual é o status político de Zelaya, caso contrário, ameaçou não reconhecer mais a embaixada como uma instituição diplomática.

Alguns senadores criticaram o fato de o termo "hóspede" não ser aceito no âmbito da diplomacia internacional. "Estamos vivendo uma situação sui generis, inclusive no direito internacional. Nunca um golpe de estado foi rechaçado com tanta unanimidade", disse o ministro.

O ministro avisou que há previsão de duas reuniões sobre a crise: uma no dia 2 de outubro com membros da OEA e outra oficial, com a presença do secretário-geral da entidade, José Miguel Insulza, no dia 7.

Votação

O presidente da Comissão, Eduardo Azeredo (PSDB_MG), aprovou o reencaminho do documento dos parlamentares de repúdio ao cerco militar à embaixada brasileira em Honduras.

Foi feito um pedido de votação de urgência para que o plenário do Senado o faça ainda nesta terça-feira. O texto sofreu modificações no Conselho de Relações Exteriores e Defesa Nacional.

(Com informações da BBC Brasil)

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