Brasil irá conter ambição armamentista russa na AL, diz analista

As ambições russas de negociar armamentos com países latino-americanos poderão ser limitadas pelo Brasil, graças ao papel de liderança exercido pelo país junto às nações da região.

BBC Brasil |

É essa a opinião de Mauricio Cárdenas, diretor da Iniciativa para a América Latina do Instituto Brookings de Washington, que falou à BBC Brasil sobre os efeitos da visita do presidente russo, Dmitri Medvedev, à América Latina.

Medvedev começou o seu giro pela região no Peru, está atualmente no Brasil, onde irá se encontrar nesta quarta-feira com o presidente Lula e de onde seguirá no final do dia para a Venezuela e, de lá, para Cuba.

Na agenda dos encontros do presidente russo com os diferentes líderes da região, está a ampliação da venda de equipamentos militares.

Enquanto Medvedev passava pelo Brasil, uma frota de navios russos chegou à Venezuela para realizar exercícios militares conjuntos com a marinha venezuelana - a primeira vez que a Rússia promove tais operações na região desde a Guerra Fria.

Sem temores

Mas, apesar da carga simbólica da agenda do líder russo e dos exercícios militares conjuntos com as forças venezuelanas, Cárdenas acredita que os russos não conseguirão ir muito longe e que o governo americano não precisa temer a investida de Medvedev.

''Washington tem dado apoio à Unasul (a União das Nações Sul-americanas, que reúne os 12 países da América do Sul e visa aprofundar a integração entre os países-membros), um grupo que é liderado até certo ponto pelo Brasil. E o Brasil tem reivindicado um papel mais ativo de coordenação das políticas de defesa na região'', afirma Cárdenas.

O analista acrescenta que a postura de Washington é a de que ''se o Brasil vai exercer esse papel, por que se preocupar com os russos? Não há tanto espaço assim para eles na região. Eles (o governo americano) confiam demais no Brasil. No final das contas, será o Brasil que vai tornar inócuo esse esforço por parte dos russos''.

''A força capaz de contrapor as intenções dos russos de se envolverem mais na região e de ter algum envolvimento em questões de defesa não virá de Washington, mas sim de Brasília. O governo brasileiro avalia: 'nós somos capazes de garantir a nossa própria segurança militar e o nosso futuro econômico'.''

Menos força

Cárdenas lembra que a Rússia de Medvedev chega à América Latina enfraquecida, pois foi um dos países mais afetados pelos efeitos da turbulência financeira, e ainda sofreu com o declínio dos preços de gás e petróleo, dois de seus principais artigos de exportação.

Além disso, argumenta o analista, as relações entre latino-americanos e russos vão demorar anos para serem aprofundadas, uma vez que ''a Rússia não conta com os recursos financeiros nem com um histórico de fortes relações políticas ou diplomáticas com a América Latina, e essas coisas não se conquistam da noite para o dia''.

De acordo com Charles King, professor de relações internacionais da Universidade de Georgetown, a visita de Medvedev marca uma ''virada'' nas relações russas com a região, por ser uma tentativa da Rússia de voltar a se firmar no cenário global, ''tanto diplomaticamente, quanto como um negociador de armas''.

Mas o analista acrescenta que não vê a visita como uma ''tentativa russa de mostrar força em uma tradicional esfera de influência americana''.

Mesmo o comércio de material militar com países latino-americanos não é visto como uma ameaça por parte do governo americano, no entender do analista.

Mau negócio

''Em Washington, existe a percepção de que países que estão fazendo compras de armas russas em larga escala não estão fazendo um bom negócio. Eles (os países latino-americanos) precisam se perguntar se contarão com manutenção, treinamento e se os equipamentos serão operacionais'', afirma.

Na opinão do analista, a investida não representa os primeiros sinais de uma mudança no eixo de poder mundial, já que o poderio americano segue forte.

''O poder americano em temas econômicos, globais, sua força militar e até mesmo o seu poder 'soft', como o da cultura, permanecem soberanos e ofuscam em muito a Rússia ou mesmo a China.''

Fim da unipolaridade

Mas, ainda assim, King acredita que as visitas de líderes como Hu Jintao, da China, e Medvedev à América Latina são sinais de que ''estamos testemunhando o começo do fim da era da unipolaridade e de que a tentativa desses dois líderes de alcançarem o resto do mundo agora está sendo sentida na América Latina''.

King lembra que tais esforços podem estar surtindo algum efeito também em ações políticas na região.

''Apenas dois países reconheceram a independência de países como a Ossétia do Sul e a Abecásia (as regiões separatistas da Geórgia). Um deles foi a Rússia e o outro, a Nicarágua.''

O analista acredita que ''certamente, Washington está prestando atenção'' aos exercícios militares conjuntos entre russos e venezuelanos, mas acrescenta que o pior que o governo americano poderia fazer era ter uma ''reação desproporcional''.

''O clima das relações (russo-americanas) já está abalado, após a Guerra da Geórgia e há um clima de transição, com uma nova administração que pretende firmar uma nova relação com Moscou. A melhor reação é a que foi tomada, a de permanecer mudo. Não está sendo tomada uma ação ambiciosa. Ninguém está simulando uma invasão da Flórida com helicópteros e anfíbios.''

Leia mais sobre Rússia

    Leia tudo sobre: rússia

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG