Brasil comemora acordo entre Venezuela e Colômbia

Para governo brasileiro, restabelecimento de relações diplomáticas é oportunidade para retomar 'dinamismo' e 'entendimento'

iG São Paulo |

O Brasil comemorou o restabelecimento das relações entre a Venezuela e a Colômbia, anunciado na terça-feira após reunião entre os presidente dos dois países - Hugo Chávez e Juan Manuel Santos. Em nota oficial, divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Brasil diz que o acordo é uma oportunidade para retomar o dinamismo e o entendimento na região.

No comunicado, o governo brasileiro se coloca à disposição para cooperar na consolidação do acordo. “O Brasil reitera sua disposição de seguir cooperando – por meios bilaterais e no âmbito da Unasul [União de Nações Sul-Americanas] – com as autoridades venezuelanas e colombianas para consolidar esta nova etapa de diálogo, em benefício da paz e da prosperidade regionais”, informa O Itamaraty.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, o entendimento entre a Venezuela e a Colômbia dará um novo impulso às relações políticas e econômicas na região. “O governo brasileiro congratula-se com os governos da Colômbia e da Venezuela pela decisão, que abre nova oportunidade para a retomada do dinamismo e do entendimento que historicamente caracterizam as relações entre os dois países”, diz a nota.

'Virar a página'

O restabelecimento das relações diplomáticas entre Colômbia e Venezuela foi anunciado na terça-feira, após mais de quatro horas de reunião entre os presidentes Juan Manuel Santos e Hugo Chávez. Em tom amistoso, eles disseram ter "virado a página" e anunciaram recomeçar do zero os vínculos políticos, diplomáticos e econômicos entre Caracas e Bogotá.

AFP
Chávez e Santos encerram crise com aperto de mãos em Santa Marta, na Colômbia

"Celebro muito, muitíssimo, esse encontro hoje com o presidente Chávez (...) decidimos virar a página e pensar no futuro nossos povos e países", afirmou Santos, na quinta San Pedro Alejandrino, em Santa Marta, onde morreu o líder independentista da América hispânica, Símon Bolívar. "Voltamos ao ponto zero (...) Decidimos ir lentamente, porém com passos firmes", disse o presidente colombiano.

Chávez, por sua vez, disse que ele e seu colega colocaram a "pedra fundamental" para estabelecer uma nova relação política e diplomática. "Agora temos que cuidá-la", disse ele.

"Decidimos reestabelecer as relações políticas, diplomáticas e plenas (...) apesar da gravidade da crise, conseguimos reestabelecer relações", afirmou Chávez, ao lado do novo presidente colombiano, com quem no passado teve enfrentamentos verbais sobre o tema de defesa e guerrilhas.

Farc

Em seus discursos, ambos os presidentes falaram sobre a necessidade de manter relações com base no "respeito", "transparência" e "confiança". "Necessito que o presidente acredite em mim, e eu, nele", disse Chávez.

Em referência à alegadas coordenadas que indicavam a instalação de acampamentos guerrilheiros na Venezuela, Chávez pediu a Santos não acreditar em "fofocas" e estabelecer canais de comunicação permanentes para evitar novos conflitos.

A suposta presença de guerrilheiros colombianos na Venezuela, pivô da crise entre os vizinhos, centrou o discurso do presidente venezuelano Hugo Chávez. "Incito a Colômbia, aos que estão convencidos: o governo venezuelano não apóia a guerrilha colombiana (...) acreditem", afirmou ele.

Chávez qualificou como "infâmia" as acusações de que seu governo seja conivente com as guerrilhas colombianas, mas admitiu que na extensa fronteira entre ambos países há penetração de grupos irregulares. "Se eu fosse o chefe da guerrilha colombiana faria tudo, tudo para a paz", afirmou.

Santos, por sua vez, disse que o posicionamento da Venezuela contra os grupos armados "é importante para que estas relações se mantenham em bases firmes", afirmou Santos.

Unasul

Ambos os países concordaram com a criação de uma comissão que deve tratar de cinco pontos. O primeiro é o pagamento da dívida da Venezuela com os empresários colombianos, estimada em US$ 800 milhões, comissão para acordo de complementação econômica, desenvolvimento social na fronteira e de infra-estrutura e no tema da segurança, ponto mais delicado que acabou sendo o pivô da crise entre Caracas e Bogotá.

Colômbia e Venezuela acordaram coordenar atividades para aumentar a presença de ambos Estados na fronteira binacional. Acompanhando a intenção do governo brasileiro, a Unasul (União de Nações Sul-americana) acompanhará os trabalhos dessa comissão.

Chávez, que chegou a responsabilizar a Organização dos Estados Americanos pela crise com a Colômbia, elogiou a presença do secretário-geral do bloco, Néstor Kirchner, na mediação da crise e defendeu a Unasul como o espaço "adequado" para tratar os assuntos sul-americanos.

"A Unasul deve se converter em nosso espaço privilegiado, não apenas para solucionar conflitos que podem surgir aqui ou ali", afirmou Chávez.

Em seguida, Santos, reiterando a posição defendida por seu antecessor, Álvaro Uribe, disse que a participação da Unasul como mediadora não "exclui" as outras organizações, em clara referência à OEA. "Não é excludente. (A Unasul) não será o único espaço para a mediação regional", afirmou.

Crise

A economia colombiana foi a principal afetada durante a crise. A previsão do Banco Central da Colômbia é que para este ano a pauta de exportações da Colômbia à Venezuela não supere US$1.2 bilhão, 80% menor em relação à 2008, quando às vendas para o vizinho superou US$ 6 bilhões.

O pivô da atual crise foram as acusações da Colômbia na Organização de Estados Americanos (OEA) de que a Venezuela abriga pelo menos 1,5 mil guerrilheiros em seu território. Chávez negou que seu governo seja conivente com os grupos irregulares e rompeu relações com o vizinho, acusando o ex-presidente Álvaro Uribe de pretender "promover" um conflito entre ambas nações.

A crise diplomática entre os governos da Colômbia e Venezuela se arrasta desde 2004, porém, subiu de tom em 2009, quando Chávez decidiu "congelar" as relações e "levar à zero" o comércio com Bogotá , em resposta ao acordo militar firmado pelo vizinho com os Estados Unidos.

O acordo - que é visto por Chávez como uma ameaça à seu governo e à paz regional - permite o uso à tropas norte-americanas de sete bases militares colombianas.

Chávez disse que foi acordado com Santos que qualquer acordo firmado por um ou outro país deve ter como base "o princípio de não agressão e de respeito à soberania dos demais países".

Os presidentes terminaram o encontro com um aperto de mãos. Chávez presenteou Santos, que completa 59 anos nesta terça-feira, com um grande volume da biografia de Símon Bolívar.

Com Agência Brasil e BBC

    Leia tudo sobre: venezuelacolômbiabrasil

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG