Brasil busca aproximação com Obama para assumir liderança regional

BRASÍLIA - O Brasil buscará com a administração americana de Barack Obama um diálogo que o legitime como líder natural na América do Sul, uma espécie de amortecedor das tensões que podem existir, disse na segunda-feira, em entrevista à Agência Efe em Madri, o analista francês Marc Saint-Upéry.

EFE |

A linha do governo brasileiro, que quer "o papel de liderança" no processo de integração regional, "vai ser essa", disse Saint-Upéry.

Ele está na Espanha para apresentar o livro "El sueño de Bolívar. El desafío de las izquierdas sudamericanas" ("O sonho de Bolívar. O desafio das esquerdas sul-americanas", em tradução livre), no qual analisa as mudanças políticas na América do Sul nos últimos 15 anos.

"Creio que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva vai buscar um diálogo de alto nível com Obama e, em um certo sentido, conseguir um nível de entendimento sobre o fato de os Estados Unidos o reconhecerem, o que é perfeitamente possível, como o líder natural de uma integração que não seja hostil", ressaltou.

Ele fez referência ao possível papel "de amortecedor de tensões" que o Brasil pode desempenhar na hora de tranquilizar Washington em relação a dirigentes como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que manteve um duro confronto com a administração de George W. Bush.

"Pode ser que essa linha brasileira encontre um eco forte em Washington com a nova administração e, neste sentido, é o grande jogo com os Estados Unidos", acrescentou o analista e jornalista francês.

Otimismo

Saint-Upéry, que está morando temporariamente nos EUA, se declara "moderadamente otimista" com a integração da América do Sul, embora insista que esse difícil processo vai depender em grande parte do que o Brasil fizer.

Neste contexto, destacou que a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) já teve "um papel de estabilização" no caso do conflito interno da Bolívia e também no surgido entre Colômbia e Equador no ano passado.

"Muito dependerá da estratégia brasileira e o problema do Brasil é que sabe que vai liderar, mas não pode se impor abertamente demais porque pode haver um ressentimento pelo peso assimétrico" entre os países.

O Brasil "é o único país que tem multinacionais na América Latina e na América do Sul em particular", acrescentou, para ressaltar que "tem um peso enorme e pode ser percebido como um pouco avassalador, o que é chamado em um certo jargão de subimperialismo".

É por isso que, às vezes, tem duas velocidades, com um perfil discreto em algumas ocasiões, porque "não quer ser acusado de impor sua vontade". "Muito depende de se o Brasil consegue prolongar esta estratégia com sucesso", afirmou.

Crise econômica

Sobre o impacto da crise econômica mundial na região, afirmou que "normalmente deveria-se estimular que as pessoas não comecem a adotar um 'salve-se quem puder' e tentar fortalecer mais o bloco".

"Mas há problemas objetivos, como é que muitos desses países são exportadores de matérias-primas e têm uma relação bilateral, essencialmente com os Estados Unidos, e as economias não são muito complementares, às vezes sendo inclusive concorrentes entre si".

Além disso, para alguns países, como é o caso da Bolívia e do Equador, a crise, "com seus efeitos, na medida em que são exportadores de matérias-primas", pode "desgastar estes Governos".

Eles serão submetidos a "um desafio de um mínimo de gestão eficiente" sem que contem com um bolsão de recursos como a Venezuela.

Em geral, sobre os governos de esquerda na América do Sul, Saint-Upéry sustenta a tese de que é errado traçar uma divisa entre bons e maus, e afirma que a retórica de alguns deles, como é o caso de Chávez ou do boliviano Evo Morales, faz com que sejam considerados mais radicais do que demonstram suas ações e medidas.

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