O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, afirmou que as exigências ambientais para o licenciamento da BR-319 (Porto Velho-Manaus) são 20 vezes mais rigorosas que as apresentadas para as obras de recapeamento da BR-163 (Cuiabá-Santarém). Apesar de ressaltar que o governo está tomando as medidas para minimizar o impacto da obra, Minc afirmou, em uma entrevista recente à BBC Brasil, ser pessoalmente contrário ao projeto.

"Eu já disse que eu acho um equívoco, a estrada, eu faria ferrovia. Mas eu não mando no governo. O que eu posso dizer é que as medidas que eu determinei são as mais rigorosas que já se colocou no Brasil para qualquer estrada", disse Minc à BBC Brasil.

Ele destaca entre essas medidas a exigência de implantação de 26 unidades de conservação com "sedes e subsedes, gente lá dentro, fiscais, e seis barreiras do Exército e três da Marinha nos rios".

Minc afirma que antes de os parques serem devidamente criados e estarem em funcionamento na prática, nem a licença-prévia (LP) do Ibama - que permite apenas dar início ao processo de licenciamento para as obras - será concedida.

"Nenhuma das unidades tem sede, gente e fiscalização, 80% não foi cumprido. Sem isso não tem LP nem que a vaca tussa. A minha área é impedir que essa estrada destrua a parte mais preservada da Amazônia."
Previsões
Nas previsões do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, o principal defensor do projeto de reabertura da BR-319, a LP deve sair ainda neste ano.

Minc, no entanto, questionou o otimismo do colega, com quem já trocou farpas publicamente na imprensa.

"Se entre novembro do ano passado e novembro deste ano apenas 20%, 25% das exigências foram cumpridas. Só se ele (Nascimento) puser todo o Exército e os funcionários do governo do Amazonas para trabalhar nisso", ironizou o ministro.

Para ele, as obras de fato dificilmente começarão antes de um ano, em contraste com as previsões de Nascimento, que afirmou à BBC esperar o início dos trabalhos para o segundo semestre de 2010.

O ministro dos Transportes defende a reabertura da estrada como uma forma de "ligação, de encontro entre os povos".

Críticas
A ideia, entretanto, é duramente pela senadora Marina Silva, antecessora de Carlos Minc no ministério do Meio Ambiente.

Cientistas, como o ecólogo Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), também se opõem à reconstrução da estrada.

Ele diz que os impactos da reabertura da BR-319 poderão ser sentidos até em Roraima.

"Nós temos um estudo sobre o Estado que mostra que as derrubadas aumentariam dramaticamente por causa da pressão migratória proporcionada pela abertura da rodovia e a conexão com o arco do desmatamento", afirmou Fearnside.

Entre outubro e novembro de 2009, uma equipe da BBC percorreu os quase 900 quilômetros da BR-319.

Você pode acompanhar um diário da viagem

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.