Bolivianos de Santa Cruz vivem onda de medo e desabastecimento

Por Eduardo García SANTA CRUZ, Bolívia (Reuters) - Agoniados com a escassez de alimentos e combustível, os habitantes da rebelde cidade boliviana de Santa Cruz torciam na sexta-feira pelo fim da crise política e temiam novos protestos violentos.

Reuters |

A região, rica em gás natural, é sacudida há dias por confrontos entre seguidores do governador local autonomista e partidários do presidente esquerdista Evo Morales. Na terça-feira, manifestantes armados com paus, pedras e escudos expulsaram militares e ocuparam prédios públicos, além de bloquear ruas.

Na sexta-feira, a situação parece mais calma em Santa Cruz, maior cidade da Bolívia, onde muitos preferem que Morales e a oposição resolvam suas diferenças pelo diálogo.

'Se o governo não controlar o problema, se continuar neste ritmo, vai escapar ao controle e pode chegar a uma guerra civil', disse o agente aduaneiro Oscar Paz.

O governo retirou policiais e militares do centro de Santa Cruz para evitar confrontos com os manifestantes, muitos deles ligados à 'Juventude de Santa Cruz', subordinada ao líder autonomista Branko Marinkovic, aliado do governador Rubén Costas.

Na quarta-feira, a crise ganhou uma dimensão externa, com a decisão de Morales de expulsar o embaixador norte-americano, acusado de tramar com a oposição. Washington reagiu expulsando o embaixador da Bolívia. Em solidariedade, a Venezuela de Hugo Chávez também expulsou o embaixador dos EUA em Caracas.

'[Morales e Marinkovic] são igualmente culpados. Têm de se sentar e negociar por bem ou por mal. Não estou com a autonomia nem com o governo. Para mim, tanto faz. O que eu quero é paz', disse a dona-de-casa América Quiroz, 39 anos, mãe de três filhos, sentada numa praça em Santa Cruz.

Em cinco departamentos do país controlados pela oposição, manifestantes exigem mais autonomia regional e tentam impedir a aprovação de uma nova Constituição, de viés socialista. No Departamento de Pando (norte), pelo menos 10 pessoas morreram em confrontos nos últimos dias.

O pedreiro Benjamín Flores, de 42 anos, disse que a oposição 'teve muito poder [antes da ascensão de Morales] e agora não quer perdê-lo'.

'Mas Morales também cometeu alguns erros, e os erros se pagam. Subestimou a oposição, não achou que tanta gente iria apoiar a autonomia', ressalvou.

Manifestantes a favor e contra o presidente bloquearam durante dias as estradas que ligam Santa Cruz com o interior do departamento e com regiões vizinhas, e muitos moradores disseram que os alimentos ficaram mais escassos ou caros.

'Já não se encontra arroz e batata, o frango e a carne estão muito mais caros', disse a dona-de-casa Quiroz.

Alguns moradores de Santa Cruz fizeram fila durante a noite para comprar botijões de gás de cozinha. 'Estaria bem se os governadores [oposicionistas] pudessem dar uma oportunidade a Morales, ver se de verdade ele pode mudar as coisas', disse a mulher.

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