Bolívia vota na continuidade de Morales e da oposição

O presidente Evo Morales foi ratificado amplamente no cargo em referendo celebrado neste domingo na Bolívia, com votação favorável que flutua entre 56,7 e 60%; mas seu sucesso estendeu-se também aos principais prefeitos - os governadores da oposição -, confirmados em seus cargos. São eles Rubén Costas (Santa Cruz), Mario Cossío (Tarija), Ernesto Suárez (Beni) e Leopoldo Fernández (Pando).

AFP |

Falta confirmar a situação dos prefeitos de La Paz e Cochabamba (José Luis Paredes e Manfred Reyes, ambos opositores). O único que não conseguiu ficar no cargo foi o prefeito de Oruro, Alberto Luis Aguilar (governista).

Estão programados atos de celebração nos departamentos governados pela oposição.

Morales anunciou que fará um pronunciamento ainda hoje para comentar o resultado.

O referendo se desenvolveu com tranqüilidade em todo o país, com poucos incidentes isolados.

O presidente Evo Morales recebeu 60% dos votos a favor e 40% contra, segundo pesquisa de boca-de-urna divulgada pelo canal de televisão PAT, com base em cálculos do grupo Captura Consulting, e com margem de erro de 5%.

Uma segunda pesquisa de boca-de-urna, transmitida pela rede privada ATB, assinalou que o presidente teve a seu favor 56,7% dos votos, confirmando também que foi ratificado.

Evo Morales, o primeiro presidente indígena da Bolívia em 183 anos, estava certo de que colheria o que semeou em dois anos e meio de gestão: nacionalizou os recursos em hidrocarbonetos e empresas petrolíferas da nação e se propõe a distribuir as terras improdutivas que estão nas mãos de ricos latifundiários dos altiplanos e da Amazônia para camponeses pobres, seus fiéis eleitores.

Segundo Morales, em algumas pesquisas ele tem até 79% dos votos a favor.

O chefe de Estado seria removido do cargo se os votos contra ele passassem de 53,74%, o mesmo percentual que obteve nas eleições de 2005.

Morales goza de amplo apoio, principalmente, nas regiões andinas de La Paz (Leste), Oruro (sul) e Potosí (sul), nas áreas rurais dos vales de Cochabamba (centro) e Chuquisaca (sudeste) e em menor medida na amazônica Pando (norte), receptora de uma forte migração aymara.

No entanto, as expectativas do presidente não são boas na região rica em gás de Tarija, na agroindustrial Santa Cruz e na pecuarista Beni, além das cidades de Sucre e Cochabamba, que resistem ao modelo de governo proposto por Morales.

Os movimentos civis nessas regiões promovem sem cessar uma formação de governos autônomos de cunho liberal.

Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija já aprovaram seus estatutos de autonomia em referendos populares entre maio e junho e vêem estas propostas como únicas vias para frear o partido governista.

Nestas regiões, está ganhando força a idéia de que, se Evo Morales perder internamente (o que não afetaria o resultado nacional), elas teriam argumentos suficientes para tornar estes estatutos legítimos.

Evo Morales, 47 anos, é o primeiro chefe de Estado indígena da história da Bolívia.

Líder esquerdista dos plantadores de coca mais importante do país e deputado no Congresso, Morales percorreu um caminho árduo desde seu nascimento, em 26 de outubro de 1959, em Isayavi (cantão de Orinoca). É descendente de aymaras e quechuas, as duas maiores etnias da Bolívia.

Depois de uma infância extremamente pobre, que levou quatro de seus seis irmãos à morte antes de completarem dois anos, Morales, assim como sete de cada dez camponeses bolivianos, deixou sua região devido a uma feroz seca que no início dos anos 80 assolou o altiplano boliviano "em busca de pão", como afirma.

Desempenhou as mais diversas atividades, como membro de uma banda de música e jogador de futebol.

Depois, foi secretário de Esportes de uma agremiação de produtores de coca, onde implantou uma incansável luta sindical, que o converteria mais tarde no líder de 30.000 famílias pobres vinculadas à produção da folha na região central de Chapare, antigo centro produtor de cocaína.

Implacável defensor dos direitos indígenas se transformou na pedra do sapato do ex-presidente Hugo Banzer, falecido recentemente, contra cujo governo organizou vários protestos em oposição a erradicação da coca ilegal em Chapare.

Fundou o Conselho Andino de Produtores de Coca, que inclui organizações de Peru, Equador, Colômbia e Bolívia, antes de receber o Prêmio Gadhafi dos Direitos Humanos em 2000 e ser candidato ao Prêmio Nobel da Paz em 1995. "Não ganhei o Nobel por falta de uma campanha do governo de La Paz", chegou a comentar.

Tornou-se popular graças à capacidade de mobilização de seus protestos e, em outubro de 2003, liderou o movimento que resultou na queda do empresário Gonzalo Sánchez de Lozada.

Líder do Movimento Ao Socialismo, principal força política boliviana, Morales é defensor do livre cultivo de coca e opositor das políticas "imperialistas" dos Estados Unidos.

Nas eleições de 18 de dezembro de 2006, conquistou o cargo máximo do país com 54% dos votos.

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