Bolívia sob tensão na véspera de referendo em Santa Cruz

Um clima de tensão pairava neste sábado na Bolívia na véspera de um referendo sobre autonomia na rica região de Santa Cruz, em conflito aberto com o presidente socialista Evo Morales, cujos partidários prometeram perturbar a votação.

AFP |

A província rebelde do leste do país, onde estão concentrados os principais campos de gás e as grandes propriedades agrícolas, conclama domingo seus moradores a se pronunciarem em favor de um estatuto de autonomia que lhe permitiria administrar seus recursos e criar sua própria polícia.

O movimento é considerado ilegal e separatista pelo governo de Morales, primeiro presidente boliviano de origem indígena e grande admirador da revolução cubana, cujo programa prevê o fim dos latifúndios e a redistribuição dos recursos do gás às populações pobres dos Andes.

"Trata-se claramente de uma manifestação para um Estado independente", alertou na noite de quinta-feira o ministro da presidência, Juan Ramon Quintana, braço direito de Morales, considerando que a questão da terra "é o maior problema".

As autoridades de La Paz já avisaram que não reconhecerão o voto. Segundo as últimas pesquisas, mais de 70% da população de Santa Cruz deve aprovar o novo estatuto de autonomia.

Neste sábado, o presidente do Equador, Rafael Correa, avisou que vários países da região também não reconhecerão a autonomia de Santa Cruz e denunciou "tentativas separatistas" apoiadas por elites equatorianas e venezuelanas.

"São tentativas separatistas absolutamente ilegais", declarou Correa.

"O que está acontecendo na Bolívia não é uma ação isolada, mas uma ação que tem o apoio de países estrangeiros que querem desestabilizar a região e das elites separatistas de Guayaquil e de Zulia, na Venezuela", sustentou.

Segundo o presidente equatoriano, aliado de Morales, os grupos de direita que atuam contra os governos de esquerda da região "formaram uma confederação separatista autônoma" para "criar Estados próprios onde possam promover o neoliberalismo e aplicar políticas imperialistas".

"Isso não é apenas um problema da Bolívia. Ninguém vai reconhecer este referendo ilegal. Trata-se de uma estratégia para desestabilizar os governos progressistas da região", denunciou o dirigente equatoriano.

Declarado inconstitucional pelo Tribunal Nacional Eleitoral, o referendo de domingo foi validado pela Corte eleitoral de Santa Cruz, entrada em dissidência.

"Tudo está pronto para o referendo de domingo", afirmou o presidente da Corte eleitoral de Santa Cruz, Mariano Orlando Parada.

Entretanto, não é certo que todos os 930.000 eleitores da região tenham acesso às urnas, sobretudo em alguns feudos de camponeses fiéis a Morales, como San Julian ou Cuatro Canadas.

"Vamos instalar barreiras nas estradas. Esse referendo não vai acontecer", anunciou Paulino Parapaino, um dirigente indígena, lamentando que sua comunidade não tenha sido consultada para a redação do estatuto de autonomia.

"Qualquer urna que chegar a San Julian será destruída", advertiu Ernancio Cortez Mendez, um líder local.

Chefe da "Confederação dos colonizadores da Bolívia", uma poderosa organização camponesa, Fidel Surco avisou que os organizadores do referendo "serão responsáveis por um banho de sangue".

As forças da ordem não preveram um esquema de segurança específico para o referendo, o que aumenta o risco de violência neste país mais pobre da América do Sul acostumado aos tumultos.

O Exército foi enviado esta semana a campos de gás da região que Morales pretende nacionalizar.

Durante o referendo, guardas particulares deverão garantir a proteção das urnas.

Santa Cruz, que tem 2,5 milhões de habitantes e produz um terço da riqueza nacional, nega qualquer intenção separatista.

Tentando ponderar suas recentes declarações sobre a instauração de uma "segunda República", o governador da região, Ruben Costas, pediu à população que "se mobilize na paz".

Este referendo é importante para o governo de La Paz, ainda mais porque três regiões vizinhas poderiam seguir o exemplo de Santa Cruz, aumentando ainda mais o risco de uma guerra civil.

Esta situação reforça o fantasma de uma divisão étnica e econômica da Bolívia entre as comunidades andinas pobres e a população de origem européia ou parda das ricas planícies orientais.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) manteve uma reunião de emergência nesta sexta-feira em Washington. "Defendemos a preservação da unidade nacional e da democracia, e queremos evitar a violência", afirmou o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza.

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