Bolivia reage à menor demanda do Brasil por gás

O governo da Bolívia vai tentar reverter a decisão da Petrobras de diminuir a quantidade de gás boliviano comprado pelo Brasil e mandará uma missão oficial para o país ainda nesta semana pra discutir a questão, informaram à BBC Brasil assessores do Ministério dos Hidrocarbonetos boliviano. A redução na quantidade do combustível comprado pelo Brasil - maior importador do gás boliviano - foi o assunto principal da reunião ministerial que ocorreu nesta quarta-feira no Palácio Queimado, sede da Presidência.

BBC Brasil |

Além desta redução, as autoridades bolivianas pretendem discutir um novo preço para o combustível enviado ao mercado brasileiro, segundo os assessores ouvidos.

"No ano passado, o Brasil disse que não iria ceder uma molécula de gás para a Argentina e agora decide comprar menos", disseram os assessores do ministério, em referência a uma declaração do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, que em fevereiro de 2008 afirmou que o país não poderia ceder gás ao país vizinho, como havia feito em 2007.

De acordo com o Ministério dos Hidrocarbonetos, o contrato de exportação de gás ao mercado brasileiro prevê que a compra de gás boliviano não pode ser inferior a 24 milhões de metros cúbicos por dia - o limite máximo previsto é de 31 milhões de metros cúbicos diários.

Segundo o ministério boliviano, mesmo consumindo menos, pelos termos do contrato, o Brasil deverá pagar por 24 milhões de metros cúbicos diários.

Autoridades brasileiras, no entanto, afirmam que o pagamento pelo gás não importado só deve ser feito se o volume comprado for inferior a 19 milhões de metros cúbicos.

Na Bolívia, não foi informado oficialmente o total desta redução, que começou a ser registrada em dezembro e se intensificou esta semana, de acordo com reportagem do jornal boliviano La Razón.

Mas, segundo a publicação, fontes do governo do presidente Evo Morales e das petroleiras informaram que esta queda foi de cerca de 33%, passando dos 31 milhões, que Brasil chegou a consumir, para cerca 20 milhões de metros cúbicos, na segunda-feira, 5 de janeiro.

Ainda segundo o jornal, além do Brasil, a Argentina - segundo principal mercado do combustível boliviano - também teria reduzido a compra de gás.

A exportação do combustível é uma das principais fontes de recursos do caixa boliviano.

Brasil

Nesta quarta-feira, o secretário-adjunto de Petróleo, Gás Natural e Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia do Brasil, João Souto, confirmou que a Petrobras reduzirá temporariamente a compra do gás da Bolívia.

De acordo com a Petrobras, a redução ocorre depois que as usinas termelétricas movidas a gás no Brasil foram desligadas para dar lugar à geração de menor custo das usinas hidrelétricas, que estão operando em níveis elevados devido às chuvas.

A estatal afirmou que a redução da importação não fere o acordo assinado em 1999 entre os governos do Brasil e da Bolívia, pelo qual a Petrobras é obrigada a pagar por 70% do volume total contratado (30 milhões de metros cúbicos por dia), mesmo que não utilize o combustível.

Souto disse à agência Reuters que é positivo para o país a redução de compra do gás boliviano neste momento.

"As térmicas a gás estavam sendo acionadas sem necessidade. Assim, você ajuda a mandar menos dólares para a Bolívia, ajuda na balança comercial", disse Souto.

Segundo ele, o volume de gás importado da Bolívia dependerá do comportamento diário do mercado interno.

Souto disse ainda que, além da redução de volume, o governo espera uma queda em torno de 20% no preço do gás natural boliviano, que é ajustado trimestralmente por uma fórmula que inclui uma cesta de preços de petróleo.

"Pela primeira vez em muito tempo a fórmula vai para baixo, porque o petróleo só vinha subindo", afirmou o secretário.

No Ministério de Hidrocarbonetos da Bolívia, no entanto, a avaliação parece ser diferente. Segundo as autoridades bolivianas, o Brasil ainda paga um preço abaixo do valor de mercado pelo gás.

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