Após o resultado a favor do estatuto de autonomia na região de Santa Cruz, em referendo realizado no último domingo na Bolívia, não resta alternativa ao presidente Evo Morales, contrário à decisão, a não ser negociar com os opositores a seu governo.

A administração do primeiro chefe de Estado indígena da Bolívia enfrenta uma encruzilhada e será obrigada a lidar com as conseqüências desse referendo que atiçou antagonismos políticos, sociais e étnicos no país.

"Ou o presidente se envolve em um debate nacional, ou vamos atingir um ponto crítico", afirmou o analista político Alfonso Román, em uma entrevista à AFP.

Román, autor do livro "Cambas y collas", que descreve a rivalidade entre a população branca mais rica e os camponeses pobres dos Andes, destaca que a "possibilidade de um confronto civil é grande".

"Se a região nomear congressistas ilegalmente, o governo usará a força do Exército e a situação então será explosiva", afirmou o analista.

Santa Cruz, eixo econômico da Bolívia, que conta com as principais jazidas de gás, recusa a nova Constituição defendida por Morales, que proclama uma redistribuição da riqueza no país mais pobre da América Latina.

A Constituição, votada em novembro passado na ausência da oposição política e em meio a confrontos que resultaram na morte de três pessoas, foi a gota d'água para as regiões que acusam Evo Morales, aliado de Cuba e da Venezuela, de querer impor um regime totalitário.

Outras três províncias rebeldes, que junto com Santa Cruz concentram 65% do PIB boliviano, também decidiram se submeter a referendos, em junho, para obter a aprovação do estatuto de autonomia.

No entanto, a Corte Nacional Eleitoral, autoridade suprema no caso, invalidou tanto a decisão do chefe de Estado de convocar um referendo para aprovar a Constituição, como o referendo sobre a autonomia regional, já realizado.

Em um debate entre especialistas organizado pelo jornal boliviano "La Razón", o advogado constitucionalista Carlos Alcarcón apontou que "nenhuma das partes se empenhou para se ajustar à legalidade, portanto, dessa situação, só se pode esperar violência".

A questão se resume em saber até que ponto o governo central e as regiões opositoras à Constituição estão dispostos a negociar.

"Ambas as partes sabem que não têm a força necessária para ignorar o outro e, obviamente, sabem que precisam co-existir", indicou o economista Luís Kinn.

Figura da oposição liberal, o governador de Santa Cruz, Rubén Costas, admitiu que o referendo não cria um estatuto de autonomia imediato.

"Não se pode criar falsas esperanças, o que estamos fazendo é dar passos adiante", disse Costas antes da votação.

Nesta terça-feira, o governo boliviano descartou a possibilidade da Igreja Católica atuar como mediadora do diálogo político entre La Paz e oposição, já que o cardeal Julio Terrazas, principal nome da Igreja no país, participou no referendo de Santa Cruz.

"Nós esperávamos contar com a mediação da Igreja Católica para uma negociação nos próximos dias, mas o certo é que a Igreja, por vontade própria, deu um passo para trás", disse o poderoso ministro da presidência, Juan Ramón Quintana, ao jornal La Razón.

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