Bolívia: crise política só piora às vésperas do referendo revogatório

Protestos em vários setores, dois mortos na repressão policial a uma greve de mineiros e rejeição de várias regiões são alguns elementos que configuram um difícil panorama para o presidente boliviano, Evo Morales, que põe seu cargo à prova, no próximo domingo, em um referendo revogatório, avaliaram alguns dos analistas consultados pela AFP.

AFP |

"O presidente está em uma situação difícil. Os conflitos colocam-no em uma situação em que pode acontecer uma surpresa eleitoral (na consulta) para ele", disse à AFP o analista político Carlos Cordero.

Segundo o especialista, os recentes conflitos podem alterar o favoritismo do presidente, que ainda conta, de acordo com pesquisas recentes de institutos privados, com o apoio de 54%, nível que, se for mantido, afastará qualquer possibilidade de que seja removido do cargo, em função do referendo.

"Os mortos e feridos podem terminar de convencer alguns setores que tinham dúvidas sobre manter seu apoio ao presidente, e esses fatos poderiam convencê-los a dar seu voto do 'não' ao presidente", acrescentou.

Na terça-feira, Morales teve de suspender, com pesar, uma reunião na cidade de Tarija (sul), com seus colegas de Argentina, Cristina Kirchner, e Venezuela, Hugo Chávez, após manifestações civis contrárias ao encontro. Segundo o líder local Reynaldo Bayard, seria um "ato proselitista a favor do governo".

Quase na mesma hora, outros violentos confrontos entre policiais e mineiros do povoado de Huanuni agitavam a comarca de Caihuasi, 200 km ao sudeste de La Paz, com saldo trágico de dois mortos e 42 feridos, entre civis e soldados.

Também paira no ar a ameaça de centenas de deficientes físicos de radicalizar seus protestos, nos próximos dias, em várias cidades do país, exigindo do governo que aplique um prometido bônus anual.

Em paralelo aos conflitos, cerca de 1.000 líderes civis e autoridades das regiões opositoras de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija começaram uma greve de fome, na última segunda, exigindo do presidente Evo Morales a restituição de verbas agora utilizadas pelo governo para pagar uma bonificação anual aos idosos.

As demandas regionais se apresentam como um dos maiores problemas para Morales, já que quatro delas aprovaram, em referendos e por ampla maioria, entre maio e junho, seus estatutos de governo autônomo. O chefe de Estado indígena alega que a reivindicação tem caráter separatista.

"O presidente corre o risco de que lhe digam, nos departamentos onde perder (no caso das quatro regiões rebeldes): 'revogamos seu mandato, você não entra mais aqui'", comentou o ex-vice-presidente aymara Víctor Hugo Cárdenas (1993-97, governo do liberal Gonzalo Sánchez de Lozada).

Para Evo Morales, o quadro dantesco pintado pela oposição é totalmente diferente da realidade. "A Bolívia está bem, estamos bem", disse ele, durante seu relatório de gestão anual, da varanda da casa presidencial, após ser rejeitado pela cidade de Sucre, onde se comemoram, normalmente, as festas pátrias pela fundação da Bolívia, todo 6 de agosto.

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