Uma certa gigante americana de refrigerantes pode discordar, mas a Bolívia lançou uma bebida gaseificada que diz ser o único produto original: a Coca-Colla.

A bebida, feita da folha de coca e assim nomeada pelo povo indígena Colla, dos altiplanos bolivianos, começou a ser vendida esta semana em todo o país.


Boliviana toma "Coca-Colla" em La Paz / EFE

Ela é preta, doce, e vem numa garrafa com rótulo vermelho - mas as similaridades com a Coca-Cola terminam aí. Uma é um símbolo do poder corporativo e da globalização liderada pelos Estados Unidos; a outra pode ser considerada uma afronta tingida de socialismo ao imperialismo ocidental.

O primeiro lote de 12 mil garrafas, com preço de US$ 1,50 (96 pesos) por meio litro, foi distribuído na capital, La Paz, e também nas cidades de Santa Cruz e Cochabamba.

O nome com som familiar e a embalagem poderão irritar a fabricante de refrigerantes baseada em Atlanta, mas a Coca-Colla também poderá gerar reclamações em Washington.

Ela é feita da folha da coca, um estimulante suave que evita a fadiga e a fome e vem sendo usado nos Andes há milhares de anos em culinária, medicina e ritos religiosos. A coca é também a matéria-prima da cocaína, o poderoso narcótico que é o principal alvo da "guerra às drogas" liderada pelos Estados Unidos.

No passado, a Bolívia chegou a tentar eliminar a folha a pedido de Washington. Mas isso foi antes de Evo Morales, um índio aimara e plantador de coca, ser eleito presidente, defendendo a coca como uma cultura vegetal com usos legítimos.

Industrialização

O governo socialista prometeu tolerância zero para a cocaína, mas expulsou agentes americanos de combate ao narcotráfico acusando-os de espionagem. Além disso, encorajou companhias bolivianas a usarem a coca para produzir chás, xaropes, pasta de dente, licores, doces e bolos.

Morales apoiou a Coca-Colla desde o início. "Estamos estudando como impulsioná-la, porque a industrialização da coca nos interessa", disse o vice-ministro de desenvolvimento rural, Victor Hugo Vázquez, no início deste ano.

Os Estados Unidos advertiram que a maior parte da safra de coca seria desviada para a produção de cocaína, e acusou a Bolívia de não cooperar no combate às drogas.

A Coca-Cola, que nega ter usado algum dia a cocaína em sua receita, não faz comentários sobre o produto andino.

Essa não é a primeira vez que a corporação enfrenta uma rival sul-americana. Em 2005, índios Paez no sudoeste da Colômbia lançaram a Coca Sek, que também se baseava em extratos de coca, e tentou promover o cultivo e o consumo diário da folha de coca, incluindo-a em chás.

Mas a bebida foi proibida no ano seguinte em meio a pressões do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos, organismo responsável pela implementação das convenções sobre drogas da Organização das Nações Unidas.

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