O ativista e músico irlandês Bob Geldof - que liderou a campanha Band Aid para arrecadar dinheiro para as vítimas da fome na Etiópia nos anos 80 - pediu a demissão do diretor do Serviço Mundial da BBC devido a uma reportagem de rádio que afirma que parte desses fundos foram usados para a compra de armas por grupos rebeldes no país africano. Em artigo publicado nesta quarta-feira no jornal britânico The Guardian, Geldof afirma que a reportagem da BBC não tem credibilidade e pede uma investigação do que foi alegado pela emissora.

A BBC afirmou que mantém as afirmações feitas por seus jornalistas.

Na reportagem, levada ao ar na semana passada no programa Assignment, o editor para a África do Serviço Mundial, Martin Plaut, afirma que boa parte dos mais de US$ 100 milhões arrecadados para as vítimas da fome na Etiópia foram desviados para a compra de armas por grupos rebeldes na província de Tigré.

No artigo publicado no Guardian, Geldof pede a demissão do diretor do Serviço Mundial da BBC, Peter Horrocks, e também do produtor da reportagem, Plaut, e de seu chefe, Andrew Whitehead.

Geldof acusa a reportagem de ter caluniado o Band Aid e diz que está denunciando o Serviço Mundial da BBC ao órgão regulador da imprensa na Grã-Bretanha, Ofcom, e ao painel de diretores da BBC, exigindo a transcrição de todas as entrevistas do programa em questão.

Ele diz ainda que a fundação Band Aid irá estudar se entre com processo na Justiça contra Plaut e o Serviço Mundial.

"O Band Aid vem sendo intensamente monitorado desde meados dos anos 80. E com razão. Nós temos uma obrigação com todos os que confiaram a nós seu dinheiro e, particularmente, em nome de quem ele foi entregue."
"É difícil acreditar que alguém teria levado isso a sério", diz Geldof. "Então onde estão todos os mortos? Se ninguém estava recebendo alimentos, por que não havia ninguém morrendo? Essa seria uma das primeiras coisas que eu teria perguntado."
"Mas eles não estavam morrendo porque eles estavam recebendo ajuda, e em muito grande quantidade. Mas, claro, no Serviço Mundial, ninguém perguntou onde estavam os corpos. Essa e tantas outras perguntas que não foram feitas."
CIA
A fome causada pela seca na Etiópia levou à morte de um milhão de pessoas em meados dos anos 80, provocando uma campanha internacional de ajuda. Agências internacionais afirmam que muitos milhões de pessoas foram salvas por esta ajuda, e contestam as afirmações da reportagem da BBC.

No documentário, Plaut cita depoimentos de dois ex-líderes do movimento rebelde Frente de Libertação dos Povos Tigrínios (TPLF) e documentos da CIA (a agência central de inteligência dos Estados Unidos) como provas do desvio. A reportagem diz que ex-rebeldes se disfarçavam de comerciantes de grãos para receber o dinheiro das agências de ajuda destinado à compra de alimentos.

Um relatório da CIA de 1985 afirma que o desvio era "quase certo", diz Plaut, que também cita um ex-diplomata americano na Etiópia (o mais graduado diplomata americano no país em 1988), Bob Houdek, que teria concluído que parte dos alimentos eram vendidos no Sudão e que o dinheiro levantado com a venda era usado pelos rebeldes para a compra de armas e combustível.

Whitehead, editor-chefe do World Service News, explicou que Plaut passou meses investigando as denúncias e disse que a BBC mantém a história.

"Nós (o Serviço Mundial das BBC) nos preocupamos com a verdade e em fazer a coisa certa. Temos várias evidências que vieram dos dois combatentes da TPLF, um dos quais foi comandante do Exército rebelde em meados dos anos 80. Temos ainda o documento da CIA e o depoimento do principal diplomata dos Estados Unidos na região na época (...), que sugerem que o braço que cuidava de ajuda humanitária dentro da TPLF, que controlava o norte da Etiópia, sistematicamente desviava ajuda para fins militares", disse Whitehead em entrevista ao programa de rádio Newshour, do Serviço Mundial.

'Desacreditado'
Para Bob Geldof, entretanto, o Serviço Mundial ficou "desacreditado" depois do documentário.

"A verdadeira história desta história é o intenso e sistemático fracasso do Serviço Mundial, a cereja no bolo da reputação da BBC. Uma cereja apodrecida nos dias de hoje", escreve Geldof.

"Uma investigação sobre o que houve de errado deve ser aberta imediatamente, devem ser tomadas medidas para retificar os problemas identificados e o Serviço Mundial precisa trabalhar muito, muito duro para restabelecer sua confiança gloriosa e sua reputação duramente conquistada como a grande emissora mundial por excelência", conclui.

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