Blues da juventude

Segunda, 19, foi aqui o que chamam de Blue Monday. Segunda triste.

BBC Brasil |

Ou deprimente.

Por quê? Os britânicos não são de pregar prego sem estopa, conforme diziam as tias de antanho. Porque ainda faltam duas semanas para se receber o ordenado. Porque as resoluções de ano novo foram todas sistematicamente rompidas. Porque o inverno que deveria estar dando as de Vila Diogo (essa não é nem de tia velha, beira Camões) continua firme por aí batendo uma máxima de 5 ou 6 graus por dia e sempre abaixo de zero à noite.

Para ser franco, segunda foi um dia como todos os outros para mim. Enfisema e fibrilação auricular são "blues" garantidos e, estivesse eu em Washington homenageando a posse do primeiro presidente negro norte-americano, estaria cantando, e destoando do resto da turma, Breathless Blues (O "blues" sem fôlego), sob o nome artístico de Nearsighted Howlin' Lessa. Não estou. Fiquei por aqui. Tenho a idade suficiente para agüentar os trancos diários.

Não é o que está acontecendo com os jovens britânicos, segundo um relatório da instituição de caridade do "Prince's Trust", cujo objetivo é ajudar os jovens vulneráveis a darem um jeito na vida.

Os jovens, no entanto, parecem sem jeito. Andam todos numa tremenda depressão. Depressão beirando o suicídio. Em níveis alarmantes. Os números, mais do que fidedignos, contam a triste história.

Antes, estabelecendo a premissa básica: os jovens não estão achando o menor sentido em viver. Que a vida faz pouco ou nenhum sentido.

A idade da rapaziada da fossa - para batizá-los com termo menos difícil de digerir - oscila entre os 16 e os 25 anos. Uma idade em que deveriam estar indo de música pop, muitas garotas e, já que tem de ser, drogas as mais leves possíveis. Sim, refiro-me à maconha. No entanto, mais de 25% da turma pesquisada se disse deprimida e menos feliz do que quando mais jovem.

Triste. Triste mesmo. Com essa idade, já sentem a nostalgia do tempo que passou. Coisa que eu acreditava privilégio daqueles com pelo menos uns 50 anos. Mais de metade se disse frequentemente estressada e que não tem a menor esperança no dia de amanhã. Os jovens britânicos se acreditam, pois, sem futuro.

Bom frisar, nesta altura, que nenhum dos jovens estava de ressaca. Seja de pileque, farra ou dor de cotovelo. Nada. Tudo normal, tudo nos conformes. Segundo Paul Brow, do "Prince's Trust", o estudo, tido como o primeiro do gênero, declarou que o resultado mostrava que há milhares de jovens que precisam "desesperadamente" - "desperately", esse o termo que ele usou - de apoio.

Esse apoio deveria vir assim que a moçada, de ambos os sexos, deixa o colégio, sem perspectiva de emprego ou curso de treinamento. Que apoio? As relações com a família e com os amigos. Esses os dois fatores mais importantes segundo o "Prince's Trust". É aí, segundo eles, que se encontra a chave para felicidade. Com um adendo importante: saúde, dinheiro e trabalho também contam. E muito.

Garotão, tive, como todo mundo, minhas fossas. A cura estava na minha cara. Ou melhor, bem na frente de onde eu morava: a praia. A bendita, a maravilhosa, a esplêndida praia. Nesses anos de que fala o estudo, entre os 16 e 25 anos, e mesmo muito, muito antes, eu abria a janela de manhã e lá estavam, em diversas épocas (sempre antes de 1960, quando eu e a cidade viramos besteira), Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. Nelas, tudo se resolvia. Elas tudo resolviam. Tudo dava para agüentar a barra. A barra terrível que é ser moço. A benção, praias da Zona Sul de um Rio que se foi.

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