Blair questiona como seria o mundo com Saddam e sugere ação contra o Irã

Londres, 29 jan (EFE).- O ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair questionou hoje como seria o mundo se Saddam Hussein continuasse no poder em Bagdá e sugeriu que uma operação militar como a desenvolvida para derrubar aquele regime há oito anos poderia ser conveniente agora contra o Governo do Irã.

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Blair compareceu por mais de seis horas diante da comissão independente que investiga a Guerra do Iraque, em um depoimento no qual não houve espaço para a autocrítica nem para o arrependimento e na qual o ex-líder trabalhista optou por aplicar a estratégia que "a melhor defesa é o melhor ataque".

O ex-primeiro-ministro respondeu às perguntas, mas também as fez para instar à opinião pública a questionar que estaria ocorrendo hoje se a coalizão dirigida pelos Estados Unidos, e apoiada pelo Reino Unido, não tivesse invadido Iraque em 2003.

"A pergunta não é tanto sobre março de 2003, mas sobre 2010", afirmou o ex-líder britânico, que argumentou que "Saddam ia continuar sendo uma ameaça. Era alguém que desafiava a ONU há 10 anos e não havia razões para pensar que fosse mudar".

Blair afirmou que o ex-presidente iraquiano tinha a intenção de voltar a formar um arsenal de destruição em massa e existia o risco que o utilizasse, como o fez contra os curdos, ou que entregasse essas armas a grupos terroristas, por isso que foi preciso usar a força.

"Se tivéssemos o deixado no poder e tivéssemos que enfrentá-lo hoje as condições seriam mais difíceis e assim como a obtenção de apoio. Se me pergunta se estamos mais seguros e melhor sem Saddam e seus filhos, acredito que estamos", indicou.

Mas o ex-primeiro-ministro foi além e considerou que os atuais responsáveis políticos ocidentais deveriam ter a mesma preocupação ou maior ainda com relação ao Irã que desenvolve um programa de armamento nuclear.

O hoje enviado especial do Quarteto para o Oriente Médio manifestou que as políticas do Irã produzem um temor maior que as geradas no Iraque de Saddam Hussein, diante do risco que Teerã forneça armas de destruição em massa a grupos terroristas.

É por isso que os líderes mundiais enfrentam hoje o mesmo tipo de decisões sobre os perigos que representam os regimes opressores.

"Minha opinião, e pode ser que muitos não compartilhem, é que os líderes de hoje têm de tomar suas decisões no sentido que não se devem assumir riscos sobre esse assunto", afirmou.

"Hoje tenho um temor maior, pelo que o Irã está fazendo atualmente", declarou Blair.

"Obviamente passo muito tempo hoje na região e vejo a maneira na qual o Irã se vincula com grupos terroristas. Este é um assunto para outro dia, mas diria que boa parte da desestabilização do Oriente Médio no presente provém do Irã", disse.

Olhando para trás, revelou que atuou de boa fé e teve convicção que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa e estava disposto a usá-las.

"Isto não foi nenhuma mentira, conspiração ou engano. Foi uma decisão", ressaltou o ex-primeiro-ministro.

Visivelmente nervoso no início do depoimento, Blair ficou mais à vontade à medida que avançou a declaração, na qual só titubeou quando um dos membros da comissão lembrou que a cada mês morrem no Iraque centenas de pessoas por causa da violência.

"Os números de mortos são terríveis, mas a pergunta é quem os está matando", questionou Blair, convencido que no Iraque "ninguém quer voltar aos tempos de quando não tinham liberdade".

O presidente da comissão, John Chilcott, terminou a sessão perguntando se Blair tinha "remorso" pelo ocorrido.

Após uma breve pausa, Blair respondeu: "responsabilidade sim, não remorso por derrotá-lo. (Saddam Hussein) era um monstro que ameaçava não só à região, mas a todo o mundo".

Enquanto Blair declarava, dezenas de pessoas, entre elas familiares de soldados britânicos mortos no Iraque, se manifestaram do lado de fora do Queen Conference Center, pedindo a condenação do ex-primeiro-ministro como criminoso de guerra.

Theresea Evans, cujo filho Llywelyn de 24 anos morreu no Iraque em um ataque ao helicóptero onde estava em 2003, declarou à agência local de notícias: "simplesmente eu gostaria que Tony Blair me olhasse nos olhos e me dissesse o que sente. No entanto, esteve aí dentro sorrindo, foi algo realmente doloroso". EFE fpb/dm

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