O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, afirmou nesta sexta-feira que produzir biocombustíveis a partir de alimentos apresenta um verdadeiro problema moral, no momento em que os países pobres enfrentam uma grave crise alimentar.

Indagado se estava de acordo com a suspensão da produção, ou pelo menos uma análise maior desse tipo de combustível, o diretor-gerente respondeu positivamente, mas enfatizou que isso deve acontecer "quando são utilizados produtos alimentícios".

"O problema energético do planeta é muito importante, mas não vai ser resolvido com os biocombustíveis, pois os motores de hidrogênio serão muito mais eficazes daqui há alguns anos, e se deve comparar com o fato das pessoas morreram de fome", alegou.

Essa tomada de posição de Strauss-Kahn contribui para a polêmica em torno da produção de combustíveis a partir de matérias-primas alimentares.

"Os biocombustíveis são um tema mundial de debate porque possuem implicações na área da energia, meio-ambiente e agricultura", assinalou esta semana à AFP Guilherme Schuetz, oficial da agroindustrial da FAO e coordenador do grupo de bioenergia.

"A produção agrícola com fins alimentícios deve ser claramente prioritária", assegurou na segunda-feira o ministro francês de Agricultura, Michel Barnier, ao propor uma iniciativa européia diante do aumento de preços das matérias-primas e a crise alimentar.

Nesse mesmo dia, o relator especial da ONU para o Direito da Alimentação, o suíço Jean Ziegler, classificou a produção maciça de biocombustíveis de "crime contra a Humanidade" por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos, em declarações a uma rádio alemã.

Ziegler se uniu aos críticos desse recurso, que afirmam que o uso de terras férteis para produzir esse tipo de combustível reduziu as superfícies destinadas aos alimentos, desencadeando assim a inflação dos produtos alimentares.

"O verdadeiro crime contra a Humanidade será descartar os biocombustíveis, e relegar aos países estrangulados pela falta de alimentos e energia a dependência e a insegurança", afirmou também na segunda o presidente Lula.

Brasil é segundo maior exportador mundial de biocombustível à base de etanol, atrás apenas dos Estados Unidos, com 22 bilhões e 28 bilhões de litros em 2007, respectivamente.

Enquanto os Estados Unidos elaboram o combustível a partir do milho, o Brasil utiliza a cana de açúcar, e os governantes argumentam que nem por isso o gigante sul-americano deixou de ser um grande produtor de alimentos.

Na quarta-feira, o Brasil rebateu as críticas que equiparam a produção dos biocombustíveis a um crime contra a humanidade, ao afirmar que o estímulo a estas fontes de energia e a luta contra a fome são compatíveis.

"Podemos conciliar políticas de produção e distribuição de alimentos, como estamos fazendo, com políticas que permitem respeitar o meio ambiente e contribuir para que a humanidade tenha acesso a energias renováveis e mais limpas", disse o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias.

Ananias, que assinou um memorando com o comissário europeu de Assuntos Sociais, Vladimir Spidla, para estimular o diálogo bilateral nesta área, explicou que o Brasil tem "características muito especiais" que permitem conciliar a produção de alimentos e de biocombustíveis.

A produção de biocombustíveis deve levar em conta o direito à alimentação e a segurança alimentar, recomendaram, por sua vez, os 33 países latino-americanos e caribenhos que compareceram à Conferência Regional da FAO no Brasil.

Insistindo no problema da crise alimentar, o diretor-gerente do FMI se mostrou bastante pessimista.

"No que se refere aos protestos por fome, o pior ainda está por vir, tudo isso é extremamente grave", destacou Strauss-kahn, para quem a crise alimentar provocar "riscos de guerra".

bur/fb

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