Berlusconi sofre ameaça de queda de governo na Itália

Há especulações de que aliado pode dividir coalizão; premiê diz que renunciará se Parlamento não aprovar plano de ajuste econômico

iG São Paulo |

Giancarlo Fini, cofundador do partido do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, tem apoio suficiente para derrubar o governo, alertou neste sábado Italo Bocchino, aliado de Fini.

Fini, que vem mostrando cada vez mais discordância com as posições do premiê, desafiou publicamente as políticas e o estilo de liderança de Berlusconi nos últimos meses, aumentando as especulações de que possa liderar uma facção contra o polêmico premiê.

Comentários publicados neste sábado de Bocchino elevarão a pressão sobre Berlusconi, que terá pela frente dois testes de confiança no Parlamento, o primeiro provavelmente em 15 de julho, quando será votado um impopular pacote de 25 bilhões de euros em prol da austeridade fiscal. Berlusconi afirmou que renunciará, como pede a Constituição, caso perca a votação.

Questionado pelo veículo independente de imprensa CNR Media sobre quantos seguidores Fini conta no Parlamento, Bocchino afirmou: "Pelo menos um a mais que o número necessário para manter a coalizão de governo a salvo."

O plano de ajuste econômico promovido pelo Executivo prevê uma economia de quase 25 bilhões de euros para os próximos dois anos. Berlusconi justificou o plano neste sábado dizendo que se trata de um programa "completamente necessário" e está em linha com os pedidos da União Europeia de reduzir o déficit público.

A iniciativa anticrise teve oposição dos sindicatos e das forças políticas da minoria. Também representou um forte confronto com as regiões italianas, inclusive com as de governo de centro-direita, às quais se pedem cortes no valor de dez bilhões de euros.

O plano foi origem de tensões dentro da maioria conservadora que levaram o ministro da Economia, Silvio Tremonti, a ameaçar pedir renúncia diante das reprovações de Berlusconi, para quem o processo foi realizado de forma demasiadamente "brusca".

A imprensa italiana foi rápida em realçar os sinais de um aumento do racha entre Fini e Berlusconi. Posteriormente, Bocchino recuou de suas declarações, dizendo que suas palavras, publicadas no site da CNR Media (www.cnrmedia.com), foram mal interpretadas. Em comunicado, ele afirmou que os partidários de Fini eram "decisivos" para manter o governo em pé e votariam com a coalizão "até o último dia da legislatura."

Desde que Fini e Berlusconi se confrontaram publicamente em um Congresso da legenda, em abril, há muitas especulações sobre se os dissidentes dentro do Partido Povo da Liberdade (PDL) teriam o número necessário de votos para tirar do premiê a maioria parlamentar.

A imprensa italiana aponta que Berlusconi procura novos aliados de governo e aponta Pier Ferdinando Casini, líder do democrata-cristão UCD, como principal candidato, embora ele tenha desmentido qualquer oferta por parte do primeiro-ministro.

A nova situação parece não agradar a separatista Liga Norte, aliada ao Executivo de Berlusconi. O dirigente da Liga Norte, Roberto Maroni, também ministro do Interior, declarou neste sábado à imprensa local que, "se alguém quer sair da maioria, que o faça, mas se o governo cair, será necessário convocar novas eleições, sem nenhuma alternativa".

Lei da Mordaça

Além do plano de ajuste econômico, o governo de Berlusconi também vem sendo pressionado pelo projeto sofre escutas telefônicas, apelidado pela imprensa italiana de "lei da mordaça".

Nesta sábado, o primeiro-ministro da Itália voltou a atacar a imprensa e a esquerda de seu país ao declarar que invocam a liberdade de imprensa como se fosse um " direito absoluto " e acrescentou que tais direitos "não existem" na democracia.

AP
Manifestantes cobrem boca em Roma para protestar contra "lei da mordaça" proposta por premiê Silvio Berlusconi (01/07/2010)
Em mensagem à associação Promotores da Liberdade, pertencente ao seu PDL, Berlusconi pediu a seus simpatizantes para que o ajudem a dar fim à "mordaça imposta à verdade" por uma imprensa alinhada com a esquerda e hostil ao governo.

"É uma imprensa que não só distorce a realidade, mas também pisoteia sistematicamente no sagrado direito à privacidade dos cidadãos invocando a liberdade de imprensa como se fosse um direito absoluto. Mas na democracia não existem direitos absolutos, pois todos os direitos encontram um limite em outros direitos igualmente válidos", disse Berlusconi.

Na sexta-feira, parte dos veículos de comunicação da Itália interrompeu suas atividades como forma de protesto contra a 'lei da mordaça' proposta pelo governo, que limita o uso e difusão de escutas telefônicas das investigações oficiais. A maioria dos jornais italianos não foi publicada na sexta-feira, enquanto rádios e televisões não transmitiram noticiários.

Segundo a Federação Nacional da Imprensa Italiana (FNSI), a greve teve apoio de 90% dos jornalistas italianos. O secretário da FNSI, Franco Siddi, promotor do protesto, assegurou que a greve foi a que teve "maior participação dos últimos 15 anos", com "mais de 90% das televisões, dos jornais, das rádios e das agências de notícias", em declarações divulgadas neste sábado pelo jornal "La Repubblica".

A lei, que está em trâmite no Parlamento italiano, estabelece, entre outras medidas, penas de até 30 dias de prisão ou multas de até dez mil euros (US$ 12,6 mil) para os jornalistas que publicarem escutas durante as investigações.

A norma, avalizada pelo Senado no último dia 10 de junho, passará no plenário da Câmara dos Deputados no próximo 29 para seu debate definitivo e, embora no início era esperado que ela fosse aprovada sem mudanças, nos últimos dias a maioria conservadora deu a entender que podem ser introduzidas algumas remodelações.

Além da imprensa, o projeto de lei recebeu críticas da oposição e dos magistrados, assim como de milhares de cidadãos que em 1º de julho se manifestaram contra a norma, que também se deparou com o ceticismo do presidente italiano, Giorgio Napolitano.

Berlusconi tentou acalmar Napolitano com uma visita no sábado do ministro da Justiça italiano, Angelino Alfano, à sede da chefia de Estado para assegurar que a maioria conservadora está disposta a introduzir modificações no texto na Câmara dos Deputados.

Com Reuters e EFE

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