Berlusconi desafia Napolitano com decreto impedindo morte de Eluana

Miguel Cabanillas. Roma, 6 fev (EFE).- O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, desafiou hoje o presidente do país, Giorgio Napolitano, ao aprovar um decreto-lei que proíbe que a alimentação e a hidratação de Eluana Englaro, de 38 anos, sejam suspensas.

EFE |

Como o chefe de Estado já anunciou que não assinará a ordem, a Itália agora vive o desacordo entre as duas maiores autoridades do país, que se chocaram frontalmente em relação ao caso Eluana, em estado de coma vegetativo desde 1992 e cuja alimentação e hidratação começaram a ser reduzidas hoje, em cumprimento a resolução da Suprema Corte.

Já de manhã, o presidente da República enviou uma carta a Berlusconi expressando sua oposição ao decreto-lei que o Executivo pretendia aprovar e que proibia a suspensão da alimentação e da hidratação de qualquer pessoa em estado vegetativo.

No entanto, Berlusconi seguiu adiante com a ordem - que sem a assinatura de Napolitano não se torna válida - e aprovou uma instrução de urgência para evitar, segundo ele, uma "omissão de socorro" a uma pessoa cuja vida "corre perigo".

Pouco depois, Napolitano anunciou que não assinará o decreto, porque o considera anticonstitucional. Agora, o Governo pensa até em convocar o povo italiano para um plebiscito e, assim, mudar os procedimentos para os decretos-leis de urgência.

Enquanto o país acompanhava a queda-de-braço entre Berlsconi e Napolitano, os médicos que atendem Eluana reduziram em 50% a alimentação e a hidratação artificial que mantêm a italiana viva.

Para isso, a equipe médica elaborou um rígido protocolo, cuja aplicação começou três dias depois da internação de Eluana na clínica La Quiete, na cidade de Udine (nordeste).

Depois do anúncio de que Napolitano não assinará o decreto de Berlusconi, o advogado da família Englaro, Vittorio Angiolini, assegurou que o processo de redução da alimentação de Eluana, que a levaria a morrer em 15 dias, seguirá adiante.

O pai da jovem, Giuseppe Englaro, disse que estada "transtornado" pelo que estava sucedendo, que tudo era "uma tormenta sem fim" e que preferia continuar em silêncio, uma postura que quis manter ao longo dos últimos meses, apesar de todo o circo midiático gerado pelo caso.

Por sua vez, o ministro da Saúde, Maurizio Sacconi, que acompanhou Berlusconi na entrevista coletiva posterior à reunião sobre o decreto, anunciou que enviou inspetores à La Quiete "para fazer algumas perguntas que ficaram sem ser respondidas" pela clínica.

Sacconi já pediu à região de Friuli Venezia Giulia, à qual pertence Udine, que estude "a idoneidade" do centro escolhido para a morte da jovem, depois de ter proibido em dezembro as clínicas públicas e privadas do país de realizar eutanásias.

Ao anunciar hoje o decreto, o chefe do Executivo italiano disse que os ministros o aprovaram por unanimidade diante da possibilidade de o estado de coma vegetativo de Eluana, que já dura 17 anos, sifrer alguma mudança.

A mulher, de 38 anos, é uma pessoa "que hipoteticamente até pode ter um filho e que se encontra em um estado vegetativo reversível como vimos mais de uma vez", declarou Berlusconi.

Imediatamente após essas declarações, o líder do opositor Partido Democrata (PD), Walter Veltroni, afirmou que Berlusconi quer criar um incidente institucional na Itália.

O vice-presidente do Senado, Emma Bonino, foi além e classificou como "fanfarronice" o fato de Berlusconi ter aprovado o decreto-lei mesmo já sabendo da oposição do chefe de Estado. EFE mcs/sc

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