Bento XVI tenta equilibrar política e religião em visita à Terra Santa

Elías L. Benarroch.

EFE |

Jerusalém, 7 mai (EFE).- A dualidade de Bento XVI como líder da Igreja Católica e chefe de Estado do Vaticano concede à próxima visita do pontífice à Terra Santa uma dimensão política e de diálogo interreligioso, duas chaves fundamentais para resolver o conflito do Oriente Médio.

A Terra Santa é formada por Israel, Cisjordânia e partes da Jordânia.

"Este é o terceiro papa a visitar a Terra Santa desde São Pedro, porque até Paulo VI, em 1964, nenhum tinha feito isso", disse à Agência Efe o vice-guardião dos Lugares Santos, o franciscano espanhol Artemio Vítores.

Nesse sentido, Bento XVI tocará as "pedras" do Cristianismo, das "comunidades que remontam aos primeiros dias" de Jesus, nas palavras de Wadie Abu Nasr, coordenador de comunicação em Jerusalém para a visita do papa.

O pontífice começará a peregrinação amanhã com uma estadia de três dias na Jordânia, e no dia 11 seguirá para Israel e aos territórios palestinos, a fase mais delicada da viagem, por razões políticas e religiosas.

O mero fato de viajar acompanhado exclusivamente de uma das partes, israelense ou palestina, a algum dos lugares santos pode causar receios e ferir sensibilidades não só religiosas.

Abu Nasr e os demais porta-vozes religiosos e políticos coincidem em que o papa não é "um peregrino mais", não só pelo lugar que ocupa na Igreja, mas também por sua condição de chefe de Estado.

"Quem se reunirá com o presidente de Israel, Shimon Peres, não é só o chefe da Igreja Católica, é também o chefe de um Estado, o Estado Vaticano", ressalta Yigal Palmor, porta-voz israelense de Exteriores.

E é desempenhando as duas funções que Bento XVI deseja fornecer à viagem uma dimensão política relacionada com a busca da paz no Oriente Médio, e outra interconfessional, com o objetivo de aproximar as três religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islã.

A princípio, "todas as visitas do papa são pastorais", confirma Abu Nasr, mas, com esta, o Vaticano também procura "promover o diálogo interreligioso com judeus e muçulmanos" e "a paz (em suas conversas) com os líderes políticos".

Até a década passada, o Vaticano via a si mesmo como parte no conflito do Oriente Médio e defendia a internacionalização de Jerusalém como única saída possível às reivindicações das três religiões monoteístas.

Sem ter abandonado esta posição oficialmente, a diplomacia católica parece ter se inclinado a favor de uma solução bilateral entre israelenses e palestinos e que, ao mesmo tempo, não sacrifique os interesses da Igreja na região.

Durante a viagem, Bento XVI deve se referir à necessidade de paz para a Terra Santa, para muitos "inalcançável" se não forem levados em conta também os aspectos religiosos do conflito.

"Há uma clara mensagem na agenda do papa, porque a religião tem um papel importante na resolução do conflito", explicou Daniel Rossing, diretor do Centro de Jerusalém para as Relações Judaico-Cristãs.

Para esta instituição, qualquer solução exclusivamente política ao conflito israelense-palestino - como foram os Acordos de Oslo - está destinada ao fracasso, "porque o vazio espiritual abre espaço para que os extremistas" atropelem essas resoluções.

No plano estritamente interconfessional, as visitas previstas de Bento XVI ao Muro das Lamentações - principal santuário judeu - e à Esplanada das Mesquitas - onde fica localizada a terceira mesquita em importância para o Islã - representam, em si, um gesto de aproximação.

"Este é um papa muito próximo ao povo judeu, é um apaixonado pelo antigo testamento e um dos objetivos desta viagem é o diálogo interconfessional", afirmou o franciscano Vítores à Efe.

Neste complexo emaranhado político-religioso, "o papa precisará guardar um delicado equilíbrio", adverte Rosin, porque o mínimo deslize pode acender o pavio da intolerância. EFE elb/db

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